domingo, 28 de maio de 2017

QUOTIDIANOS


Foi apanhado em flagrante, frente ao Pingo Doce da Nossa Senhora da Conceição, a vender uma base de cocaína.
A policia, que o vigiava por achar estranha a sua postura, deitou-lhe a mão quando o viu entregar algo e a receber dinheiro em troca. Mas, após busca exaustiva, não conseguiu encontrar-lhe nada.
Certos de que estavam "a ser ludibriados", os investigadores da PSP de Vila Real decidiram "revistar o cão".
Nada no pelo mas, bem dissimulados na trela animal, estavam seis pacotes de heroína e duas bases de cocaína. Mesmo assim o Pinóquio negou. Não sabia de nada e a haver droga só podia ser do cão.
Vai ser presente ao juiz de instrução criminal.

Do Jornal de Notícias

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

SER CRIANÇA OUTRA VEZ


16-6-1965
Hoje apeteceu-me voltar aso meus 12/14 anos, ser criança outra vez, lembrar-me do meu álbum de artistas de cinema! Com outro espírito já, sensível à beleza de outro modo, colo neste meu companheiro de a má reprodução de fotografia de uma bela mulher: Marie Laforêt.

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

sábado, 27 de maio de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Conquistador

Almeida Faria
Desenhos: Mário Botas
Editorial Caminho, Lisboa, Abril de 1990

Acreditei durante muito tempo ter vindo ao mundo de um modo diferente de toda a gente. Foi minha avó Catarina – e as avós nunca mentem – quem me meteu esta ideia na cabeça. Costumava contar-me que, num dia de nevoeiro, de manhã cedo, apesar do nevoeiro, o faroleiro João de Castro tinha ido à praia da Adraga apanhar polvos, quando deu comigo metido num ovo enorme, com a cabeça, as pernas e os braços de fora.
Como testemunhas presenciais minha avó citava um cavaleiro maneta, mestre equestre, que para ali ia montar acompanhado pelos seus três peões de brega, recrutados entre os mais aparvalhados das aldeias, Eles e o faroleiro assistiram estremunhados ao estranhíssimo espectáculo. E os cinco disputaram entre si quem iria ficar comigo. A meio da discussão foram atacados por uma cobra-marinha que estava a guardar-me. Mas João de castro, com a lança que lhe servia para espetar os polvos entre as rochas, cortou-lhe a cabeçorra diabólica. Assim conquistando o direito à minha posse.
Este faroleiro, de aqui em diante meu pai, vivia com a mulher. Joana Correia de castro, no cabo da Roca, e por não terem filhos lhe interessava ficar com o enjeitado, quase normal uma vez saído da casca. E lá me levou ao colo, ora ao colo ora às costas, por atalhos e a corta-mato, até às pedregosas alturas da Roca, na esperança de não encontrar ninguém mais, para não ser obrigado a explicar quem era a criança a chorar esfomeada. Nunca na vida meu pai desmentiria a sogra, que não lhe perdoava a pobreza nem o ter-lhe roubado a única filha, três vezes mais nova que ele. E Joana, minha mãe para todos os efeitos, deve ter gostado desse filho-mistério que primeiro a assustou porque tinha seis dedos no pé direito, e logo a comoveu por vir roxo de frio, mal embrulhado numa capa impermeável.
Por muito que meus paus receassem irritar os ânimos difíceis de Catarina ao porem em causa o seu relato, não compreendo que o não fizessem mais tarde, caso fosse outra a verdade. Sempre subscreveram a versão da minha avó, e aos poucos me acostumei a ser uma ave rara. 

QUOTIDIANOS


E onde é que nós íamos mesmo na conversa? Ah, é verdade! No mudar de vida, na prevenção de que, agora, como na canção que já soube de cor. «há sempre qualquer coisa que está para acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber…»

João Gobern em Boca Doce

sexta-feira, 26 de maio de 2017

OLHAR AS CAPAS


Elegia Para Um Caixão Vazio

Baptista-Bastos
Capa: José Pinto Nogueira
Edições O Jornal, Lisboa, Fevereiro de 1984


Percorri um caminho incalculável, um tempo de analogias e de conhecimentos, obedecendo, impotente, a leis naturais que me vão destruindo e degradando. Estou cansado de perseguir: notícias, mulheres, o êxito, a felicidade. Ambiciono uma agitação ordenada, saturei-me do alvoroço aflito, já pouquíssimas coisas me melindram, consegui curar-me de chagas e de remorsos, expulsei-me eu próprio do sonho. Reconheço-me por aquilo que fui realizando, seria difícil o contrário, mas tudo o que fiz parece-me inútil, um intolerável lugar-comum; e já perdi todas as disponibilidades: fui reduzido e reduzi-me. O grito, a imprecação, a viva-voz são mais contundentes, mais eficazes do que a palavra escrita. De aí, talvez, que as histórias contadas de geração para geração (a verdade coral, a oralidade) se tenham mantido mais vivas, mais coloridas do que a palavra escrita. Nunca consegui viver e reflectir com rigor e escrúpulo o que vi. Sempre existi num universo de ideias e de alegorias, e a realidade é-me implacavelmente fastidiosa. Mas houve tempo em que julguei ser impossível acreditar em outra gente, em outro local, em outro destino. É; eu sei, tudo isto é deprimente, inacabado até ao fim dos tempos, sem que nada me tenha notificado do prazo. Todavia, só disponho deste povo, deste país, destes hábitos, desta monotonia, deste corpo e desta consciência. Queira ou não, sou impelido a eles, a com eles convizinhar, eis o meu fado, a minha sina.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

A SEGUNDA VEZ QUE ME ROUBA UM PRÉMIO


Carta de Jorge de Sena, datada de 4 de Maio de 1969, para Eugénio de Andrade:

Fisicamente e espiritualmente, estes meses têm sido muito difíceis para mim. Sofro terrivelmente de saudades da Europa, maiores e piores do que as que viera sentindo nestes dez anos de ausência, e isso paralelamente coincidindo com um período de dissensões e canalhices no meu Departamento, com a mediocridade mais triunfante do que nunca (em grande parte resultado da minha ausência de seis meses, em que aproveitaram para retomar posições e ascendência). E coincidindo também com uma vaga de direitismo repressivo na América, capaz de dar a volta ao estômago mais indiferente (e, ao mesmo tempo, vejo as esquerdas repetindo estupidamente todos os erros e provocações que, no Brasil, culminaram na revolução militar com o aplauso da média burguesia que hoje aperta o cinto). Além disto porque, porque, vindo exausto e enfraquecido, mergulhei num trabalho insano, os meus nervos estão à flor da pele, e a minha irritabilidade que, na maior parte dos casos faço por engolir (uma das artes das Américas é refinada: levar a pessoa a explodir, para ser ela quem tem a culpa… - e nisto os Estados Unidos são, no convívio, tão canalhas como o Brasil) não podia ser mais dolorosa e sensível. Tudo isto foi coroado com uma coisa em que não tinha fé, mas alguma esperança, até pelo desafogo económico que me traria momentaneamente, e que guardarás para ti, se não é coisa sabida à boca pequena: eu era o candidato do Diário de Notícias para o magno prémio que foi para o Torga (por sinal, é a segunda vez que este diabo me rouba um prémio a que não concorria pessoalmente). E se o não ganhei agora, depois de toda a promoção propagandística que me rodeou, é evidente que o não ganharei nunca.



Legenda: página do Diário Volume XI em que Miguel Torga «justifica» ter aceite o Prémio Diário de Notícias que, segundo Sena, lhe estaria destinado e lhe traria algum desafogo económico.

VIAJANTE VENCEDOR


Como a alma do caminho de ferro são as viagens de longa distância, o comboio de mercadorias que se vê serpentear pela via abaixo puxado por uma máquina puff puff é o viajante o vencedor o melancólico sistema que faz a vida.

Jack Kerouac em Viajante Solitário

À LUZ DE CANDEEIROS


Numa manhã de sol, três pombos descansando num candeeiro.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

POSTAIS SEM SELO


Entre todas as injustiças, nenhumas clamam tanto ao Céu como as que tiram a liberdade aos que nasceram livres e as que não pagam o suor aos que trabalham.

Padre António Vieira 

VIGÉSIMO PRIMEIRO POEMA SOBRE A MORTE DE DEUS


Enlouquecia.

Dizia: já não existo.
Como se fosse Deus

António Rego Chaves em Três Vezes Deus


Nota do editor: o primeiro poema está publicado em Dizendo-me Aqui Estou

OLHAR AS CAPAS


Armadilhas Do Acaso

Peter Cheyney
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 285
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Quando a campainha de partida soou, O’Day meteu pelo carreiro que levava das traseiras do paddock ao recinto fechado. Parou, a ver os cavalos saltarem o primeiro obstáculo. Achava que um concurso hípico de obstáculos era uma daquelas coisas de que se gostava ou não gostava. Pessoalmente não tinha ideias preconcebidas a esse respeito – o que significava que estava aborrecido.
Os espectadores aproximaram-se das vedações, enquanto os cavalos transpunham a curva e entravam na recta. Ao passarem, O’Day reparou que o seu era o penúltimo e, então, sim, não lhe restaram dúvidas de que estava aborrecido. Encolheu os ombros. Paciência!

terça-feira, 23 de maio de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Uma das muitas vezes que vi Belarmino, filme-reportagem de Fernando Lopes. foi na noite de 10 de Outubro de 1972, na televisão a preto e branco da ditadura.

O filme fechava um breve ciclo dedicado ao cinema português.

Guardo o recorte do Diário Popular desse dia e onde Baptista-Bastos deixou uma breve evocação:

Era uma vez um filme à procura de espectadores. Foi há tantos anos que muitos dos que nele participaram só de vago se recordam: os dias vararam os meses, outra década surgiu, e o que figurava como imprecação e cólera – é, apenas, a ingénua aspereza de um protesto. O tempo sugere estas direcções inesperadas: o índice moral altera-se e as porções de coisas que entendêramos como verdades inarredáveis irão, sempre, obedecer a outros estatutos, «Belarmino» (é necessário dizê-lo) nasceu de projectos asseados e da urgência que tínhamos em cometer alguns desacatos. Gente considerável viu no seu comovido inconformismo um panfleto contra a fome e o desespero de um homem – quando era, tão-sòmente, a forma humilde de manifestarmos a incomodidade de termos trinta anos e de viver em Portugal perfilados na mesma coragem de ser campeões sem murro, poetas sem rima, cronistas sem coluna, bebedores sem bebida. Amantes sem amor. O filme procurava os espectadores que jamais teve: estreado num cinema de bairro, apoiado pela grita e pelo entusiasmo dos cineclubes – essa noite foi um alvoroço e uam discreta esperança. A peregrinação das conversas, entre o Vává, o Ribadouro e o Monte Carlo, num esquerdismo festivo que desejava áulicos e trompetistas da nossa efémera glória, cumpriu-se durante alguns meses. Mas «Belarmino», no Aviz era a desolação e o riso; um filme à procura daquela gente para quem Belarmino-o-homem afinal se dirigira sempre: «às vezes as palmas apeteciam-me mais do que as bolas de Berlim com que enganava a fome.» O recado que queríamos dar foi apressado, certamente; foi tosco, desajeitado e parvo, talvez. Mas esta noite, quando a Televisão fizer correr o filme para dois milhões de espectadores, há uma que estará a dobrar o cansaço para aquém do tempo, a sonhar as mesmas cóleras e as mesmas imprecações. E, talvez, a pensar que os miúdos desta cidade se recusam, hoje, a ser campeões. Campeões de quê? Campeões de quê?
Responde lá, ó Belarmino…



O Helder Pinho foi o responsável por vender a ideia ao Mário Castrim para que o Belarmino fizesse parte de um dos Encontros do Diário de Lisboa-Juvenil:

O retrato de um antigo lutador de boxe, Belarmino Fragoso, através das suas deambulações por uma Lisboa que já não existe. A solidão, o medo e a derrota cruzam-se num filme que baralha o documentário, a ficção e a entrevista num passeio por antigas salas de cinema e clubes nocturnos.

Para um catálogo da Cinemateca dedicado a Fernando Lopes, escreveu Manuel Monzos:

O Fernando fez um dos filmes que mais estimo e admiro. É o Belarmino. Apesar de não o achar perfeito, tenho por ele um enorme carinho, não somente pelo filme em si, mas, e talvez principalmente, por aquilo que pude sentir e aprender do que pode ser também o cinema.
A primeira vez que o vi foi há muitos anos, ainda era um miúdo e desde então recordo-o pela estranha sensação de surpresa e espanto com que fui confrontado com algo tão directo, tão próximo e tão real.
Foi um dos meus tios que nos fez vê-lo, a mim e aos meus primos, porque para além do que ele gostava do filme, trabalhavam nele dois dos seus amigos, o Manuel Jorge Veloso e o Augusto Cabrita.
Isso para mim já era divertido, pois através do meu tio eu também os conhecia.
Mas o que realmente me impressionou foi o próprio filme. Tudo o que nele se encontrava me era próximo. Era Lisboa, a Baixa e mesmo o meu bairro, a Mouraria. As ruas por onde andava, as pessoas com quem me cruzava.
Era o estádio do meu clube e o clube do bairro, a Barros Queirós, o Arcádia, o largo de São Domingos, onde muitas vezes encontrei Belarmino Fragoso, um tipo a quem eu até cumprimentava quando nos cruzávamos.


Pela primeira vez via um filme que me dava a sensação de poder estar lá, era um mundo palpável de coisas reais e que eu conhecia. E isso era fantástico. Essa possibilidade que descobria com aquele filme, daquilo que o cinema permitiria.
Nessa época ainda não pensava vir a dedicar-me ao cinema, mas dos fi lmes que via nos cinemas de bairro, como o Royal, o Rex, o Liz, o Cine-Oriente, ou nas grandes salas como o Império, o Monumental, o Tivoli, o Alvalade, o
Avis, os cinemas da rua dos Condes, nas escolas, salões paroquiais ou no Centro Espanhol, nesses primeiros filmes que via apenas com a emoção inocente de quem «vê» uma história, entre eles recordo bem o Belarmino por isso.
Essa capacidade de usar e reproduzir o real. E também o modo como era feito, mesmo sem perceber nada disso nessa altura, aquilo usava a montagem de um modo novo e surpreendente para mim e não tinha nada a ver com
o que eu vira até então. Aquilo foi forte e marcou-me. Mesmo hoje é um filme que revejo com enorme carinho e considero dos melhores filmes Portugueses.

Belarmino é um dos Amigos Pensados que o Alexandre O’ Neill deixou estampado na Feira Cabisbaixa:

TIVESTE  jeito, como qualquer de nós,
e foste campeão, como qualquer de nós.

Que é a poesia mais que o boxe, não me dizes?
Também na poesia não se janta nada,
mas nem por isso somos infelizes.

Campeões com jeito,
é a nossa vocação, nosso trejeito.

Esperam de 1 a 10 que a gente, oxalá, não se levante
– e a gente levanta-se, pois pudera, sempre.

Belarmino:
Quando ao tapete nos levar
a mofina;
tu ficarás sem murro,
eu ficarei sem rima,
pugilista e poeta, campeões com jeito
e amadores da má vida.

Uma das perguntas do Baptista-Bastos no filme do Fernando Lopes:

- Belarmino, tu és um homem ou um animal?


- Um pugilista é sempre um homem.


Belarmino Fragoso morreu a 19 de Abril de 1982.

Baptista-Bastos escreveu a notícia, o requiem por aquele bailarino em pleno ringue, um movimento perpétuo, um vigor que não se estilhaçava, um vulcão de poder e de força.

E AINDA NOS DÃO DINHEIRO


Neste dia, em vez de dar aula, fui conversar com o metodólogo. Perguntei-lhe se devia falar caro ou falar acessível; e ele achou, comigo, que devia falar acessível, porque serei «sempre diferente deles». Isto de ser «diferente deles» vem lembrar outro assunto de que falámos – se não neste, noutro dia. – O do professor que sente a necessidade de se impor ao aluno pelo alardeamento de uma vastidão e complicação de conhecimentos com que o amachuca e que se irrita ou inventa, se necessário for, quando o aluno lhe pergunta qualquer coisa que ele não sabe. Por mim, nego-me a impor-me desta maneira medrosa e desonesta e será, como tem sido, sempre sem vergonha que direi que não sei. Se não houver este ano há para o outro ou para de aqui a cinco o aluno que compreende que o professor não é um livro aberto. «O meu melhor professor foi um professor de Inglês que não sabia nada de Inglês» – disse o meu metodólogo; ora quem o julgou o campeão dos professores creio eu que não foi o metodólogo; foi o aluno do Liceu.
Mas onde haverá papel (e memória abundante e precisa?) para registar tudo quanto nós conversámos? Neste dia o assunto que mais abordámos foi o professor. Falei-lhe de um para encantador meu amigo e já agora, para fechar este parágrafo, deixo aqui aquela encantadora confissão da Lourdinhas, tão boa indicação do que, em última palavra, deve ser o Professor: «Então a gente anda aqui tão feliz e no fim do mês ainda nos dão dinheiro?»

Sebastião da Gama em Diário

OLHARES




Rotunda das Olaias.
Todos os anos, por Maio, o espectáculo dos jacarandás floridos na cidade.

UMA TERRÍVEL VONTADE DE DEIXAR-ME IR...


A falar de comboios, Alice Vieira, no seu livro de crónicas Bica Escaldada, conta da morte de Leon Tolstoi numa estação de caminho-de-ferro:

Um dia, sem que até hoje alguém tenha conseguido explicar a razão, o velho Leão Tolstoi fugiu de casa, apanhou um comboio, saiu dele quando já estava muito longe, e deixou-se morrer, sozinho, na pequena gare de Astapovo. Sempre me pareceu a maneira mais digna de se morrer – sobretudo, como era o caso, aos 80 anos, depois de já se terem apanhado e perdido todos os comboios essenciais de uma vida.

Das razões de Leão Tolstoi, conta José Jorge Letria, num artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 15 de Maio de 2017:

No dia 14 de Novembro de 1910, Leon Tolstói morreu de pneumonia na estação de caminhos-de-ferro de Atapovo, na província de Riaz, depois de abandonar a casa onde vivia e onde Sofia Andreievna, sua mulher e valiosa colaboradora durante muitos anos, permaneceu.
A relação conjugal fora afectada pela decisão do autor de Guerra e Paz de prescindir de metade dos seus direitos de autor. Sofia nunca aceitou essa decisão, como não aceitou a metamorfose perada na vida e nos hábitos do marido que repudiou a condição aristocrática de ambos, passou a andar descalço e começou a servir-se a si próprio nas refeições.
Uma parte significativa da inquietação que esteve na origem desta radical mudança está presente no texto de Uma Confissão, livro publicado em 1882, quatro anos antes de A Morte de Ivan Ilitch. Também rejeitou a autoridade da Igreja Ortodoxa, que o excomungou em 1901. Em tempo de ruptura e crise escreveu no seu diário: “Tenho uma terrível vontade de deixar-me ir.”

Sobre a morte de Tolstoi, o poeta brasileiro Mario Quintana escreveu Poema da gare de Astapovo:


O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua…
Sentou-se …e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Gloria,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E entao a Morte,
Ao vê-lo tao sozinho aquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu…
Ele fugiu de casa…
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

DEUS NÃO PODIA PERMITIR UMA COISA DESSAS!


Mas sempre vos direi que em todo o tempo foram os homens dignos de comiseração. E vocês sê-lo-ão igualmente. Confesso-vos que penso em vós com alguma apreensão. Pergunto a mim mesmo, frequentemente, que será do mundo, que será da presente civilização quando se esgotar o petróleo? É claro que o petróleo há-de acabar, como tudo. Fura-se a terra afanosamente, em solo firme e no fundo dos mares, e vai-se-lhe chupando essa mal cheirosa seiva de que depende toda a nossa vida. E quando não houver mais nada para chupara? Conheci um homem muito católico, e não menos obtuso, que me respondeu um dia quando lhe falei neste assunto: “O petróleo nunca mais acaba. Deus não podia permitir numa coisa dessas!” Não sabia o pobre diabo que Deus tem permitido coisas terríveis uma das quais foi ter-se descoberto o petróleo.
E como vai ser depois? Como andarão os automóveis? E os aviões? Saberão vocês, meus queridos tetranetos, o que é um automóvel ou o que é um avião? Talvez os conheçam como eu conheço os coches de Suas majestades que se guardam nos museus, e alguns bem lindos, por sinal. E depois? Andarão vocês de coche? Isto na hipótese da terceira guerra mundial deixar sobreviventes.
É claro que não me esqueço de que as ciências e as técnicas não param de progredir, e que as descobertas futuras são insuspeitadas, mas deve ser muito difícil substituir o petróleo nas suas aplicações. Vocês é que o saberão.

Rómulo de Carvalho em Memórias

TRUMPALHADAS


As trumpalhadas são mais que muitas.

Donald Trump não inspira confiança.

Ele e a corte que escolheu para a casa Branca.

Não há dia em que não se fale de  «impeachment».

Soube-se agora que Cuba condenou a mensagem com que o presidente dos Estados Unidos se dirigiu ao povo cubano para assinalar a sua festa da independência, ocorrida no sábado.

Num comunicado lido na televisão estatal cubana, o Governo de Raul Castro considerou que o presidente norte-americano foi mal aconselhado, sendo a mensagem descrita como questionável e ridícula.

As autoridades cubanas reagiam a um comunicado emitido pela Casa Branca por ocasião da celebração da independência cubana, no qual é referido que o despotismo cruel não pode apagar o desejo de liberdade dos cubanos, que merecem um governo que defenda de maneira pacífica os valores democráticos.

Mesmo o governo dos EUA está ciente das afirmações desajeitadas e contraditórias do bilionário que se tornou presidente, tanto em política internacional como nos assuntos internos. 

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


domingo, 21 de maio de 2017

MAIS OLHARES


A última música foi «Come Together» dos Beatles e o José António Portela convidou todos os artistas, que tocaram e cantaram na Gala, e quem quisesse, para subirem ao palco e cantarem, em coro, o «Come Together».
Estes são alguns dos artistas e faltam mais mas, quando estava todo o povo e me aprestava para fazer o boneco, a máquina exigiu que mudasse de bateria e bateria não existia.
Acidentes de percurso.
Entre o Paulo e o Duarte está o Daniel Bacelar que não quis deixar de marcar presença. 
Ainda gritaram pela «Marcianita» mas, mais uma vez, saiu para bingo. 

OS CROMOS DO BOTECO


Eu e o Nuno Potes.
O Nuno levou uns caixotes de vinis para ir vendendo durante a Gala dos Anos 60 no Centro Cultural do Cartaxo. 
Ainda deu para trazer uns epezinhos que, por estes dias, apresentarei por aqui.

OLHARES


É uma chatice, mas cada geração entende que a sua é sempre a melhor.
Faço parte dos anos 60 e, garanto, que outras podem ser boas, mas aquela, desculpem lá, foi um must.
Como ontem alguém disse, teve de tudo: Maio 68, Primavera de Praga, Vietnam, a nossa guerra colonial e… muita música, GRANDE MÚSICA, para melhor dizer.
Gente entusiasta e variada formaram bandas que nos ajudaram a passar tempos difíceis. A guerra dispersou muitos, mas eles passaram a encontrar-se, voltaram a pegar nas guitarras, nas baterias, nas teclas.
Andam por aí e, uma vez por ano, por iniciativa do António José Portela,     encontram-se, no Cartaxo, na Grande Gala.
Só este ano tive a oportunidade de estar presente e fiquei encantada.
Apesar, dos anos, aquela gente toca e canta para caramba!
E quando o José Manuel Concha arrancou com o «Let’s Twist Again», a malta não resistiu mais e vá de twistar.
Alívio de alma.
E até à próxima gala, que já tem data marcada: 19 de Maio de 2018.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


… por isso não me despeço. Vou ficar por aqui enquanto gostar e sei que hei-de gostar enquanto cá estiverem as pessoas por causa de quem gosto. Vou só descansar um bocadinho e voltar com fato novo. Feito de fitas, feito de mim. Também nisso não vou mudar. Não sei fazer ou falar de outra coisa. Até já.

                            João Bénard da Costa, final de Os Filmes da Minha Vida, os Meus   
                           Filmes da Vida

Nota do Editor: João Bénard da Costa morreu a 21 de maio de 2009,

Legenda: Fotograma de A Palavra de Carl Dreyer, 1955

sábado, 20 de maio de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


Ninguém o disse melhor que o senhor Presidente da República, que afirmou que “a vitória na Eurovisão deu 'mais 20 centímetros' aos portugueses”. Sim, excelente, andamos todos com mais 20 centímetros, mas onde é que está o metro e meio que perdemos como nação há 20 anos para cá, com a perda de poderes do Parlamento português, com a assinatura de tratados como o Orçamental, com a subjugação a um modelo de crescimento medíocre em nome das “regras europeias”, com acordos como o Acordo Ortográfico, que fez proliferar as normas da ortografia do português, em vez de as unificar, ficando nós com a mais pobre, com os cortes no ensino da língua e da projecção da cultura, com a ênfase na diplomacia económica e o definhar das instituições como o Instituto Camões?
O mais grave de tudo é que os 20 centímetros que o Salvador Sobral trouxe são em grande parte mérito dele, e o metro e meio que perdemos é demérito nosso. Foi o resultado de uma política de dolo que a União Europeia usou, com destaque para ao Tratado de Lisboa, que tirou às escondidas e sem debate público poderes que ninguém conscientemente deu à União, em detrimento da soberania nacional, foi o resultado dos desastres de Sócrates que nos levaram ao resgate e da política para forçar eleições em 2011 do PSD, foi o resultado da nossa apatia cívica face ao que é verdadeiramente importante, em contraste com as excitações futebolísticas. Foi o resultado de um sistema político no qual a dimensão cultural, histórica e expressiva da língua e da sua ortografia foi deitada ao lixo, por uma espécie de engenharia diplomática que se revelou um desastre, ficando todos pior do que o que estavam.


José Pacheco Pereira no Público

AS CASAS


As casas habitadas são belas
se parecem ainda uma casa vazia
sem a pretensão de ocupá-las
tornam-se ténues disposições
os sinais da nossa presença:
um livro
a roupa que chegou da lavandaria
por arrumar em cima da cama
o modo como toda a tarde a luz foi
entregue ao seu silêncio

Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa


José Tolentino Mendonça

NÃO HÁ POVO COMO O PORTUGUÊS


Carta de José Saramago, datada de 8 de Maio de 1967, para José Rodrigues Miguéis:

Leva uma pessoa quase uma vida a sonhar com Paris, e depois chega lá, olha em redor, vê o Sena que é assim a modos que o Tejo visto do outro lado do binóculo, e murmura, decepcionado: «Afinal é só isto?» Pois é, é só aquilo. Duas horas depois, porém, começa a sentir-se que a cidade vai entrando, e daí a nada levantamos a bandeira branca: rendição! Foram quatro dias de re-descoberta, que é aventura bem melhor que a descoberta. Vi o que era possível ver em tão pouco tempo e andei quilómetros de enfiada, ali, a pé. Imagine se eu ia perder uma passada que fosse… Ficou-me foi a ideia fixa de voltar…
Mas descobri uma coisa muito séria: é que nós, portugueses, somos, afinal, um excelentíssimo povo! Talvez eu esteja enganado, mas não creio que os franceses (ou os parisienses) mereçam a cidade que têm. Aquilo pode ser a douce France, mas o povo é que não tem nada da tal douceur de vivre tão apregoada. Ponho-me a pensar que grande troca seria pôr em Paris os alfacinhas e em Lisboa (vá lá) os parisienses. Faziam-se duas grandes cidades… A sério: ou eu estou muito enganado, ou não há povo como o português. Apelo para a sua experiência de vagamundo. Estou errado?