sábado, 22 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Relâmpago

Nº 11
Número dedicado a Carlos de Oliveira
Colaborações:
José Ricardo Nunes, Manuel Gusmão, Pedro Eiras, Rosa Maria Martelo, Armando Silva carvalho, Augusto Abelaira, Eduarda Dionísio, Eduardo Prado Coelho, Fernando Lopes, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz, José Manuel Mendes, Margarida Gil, Nuno Júdice, Urbano Tavares Rodrigues
Capa: Nuno Marques Mendes
Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro de 2002

De súbito, o Carlos de Oliveira pediu-me:
- Você por acaso tem aí um lápis?
Aquele “por acaso” impressionou-me, era indicativo de que, para ele, só por acidente um escritor usaria lápis (então eu ainda não publicara nenhum livro). E fui perguntando:
- Você esqueceu-se?
Para meu espanto, revelou-me que nunca, por nunca ser, trazia um lápis (ou caneta) na algibeira. O seu lápis era a memória, construía as poesias “na cabeça”. Alinhava e desalinhava as palavras na memória durante o dia, durante as horas do dia, e quando chegava a casa, era somente escrevê-las. Somente? Escrevê-las, reescrevê-las, quem conhece o Carlos sabe como é.
Então, com o lápis, para depois a Ângela as passar à máquina. Quantas vezes?

(Do texto de Augusto Abelaira)

NÃO SOMOS NÓS QUE DECIDIMOS


Nunca controlamos completamente a curvatura da nossa carreira. Os acontecimentos históricos e culturais criam uma oportunidade, determinada canção vem-nos parar às mãos e abre-se uma janela para o impacto, a comunicação, o sucesso, a expansão da nossa visão musical. Pode fechar-se de imediato para nunca se reabrir. Não somos nós que decidimos quando chegou o nosso tempo. Podemos ter trabalhado arduamente, honestamente, visando – de forma consciente ou inconsciente – uma certa posição, mas nunca sabemos mesmo se o nosso «grande» momento vai chegar. E de repente… ele aí está.

Bruce Springsteen em Born to Run

sexta-feira, 21 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Carlos de Oliveira: A Parte Submersa do Iceberg
Exposição

Curadoria; Osvaldo Silvestre
Edição Museu do Neo-Realismo e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira
Vila Franca de Xira, Março de 2017

Carlos de Oliveira escreveu pouco; no entanto, tudo o que escreveu está impregnado de uma intensidade admirável, deixando-nos uma obra relativamente curta mas profundamente coesa, composta por vários objectos literários que, todos eles, contêm em si imensos mundos por explorar.


Do catálogo

A PARTE SUBMERSA DO ICEBERG


Até 29 de Outubro, podem ver no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, a exposição «Carlos de Oliveira: a parte submersa do iceberg».

O título da exposição, com curadoria de Osvaldo Manuel Silvestre, provém de um texto de Carlos de Oliveira incluído no volume O aprendiz deFeiticeiro. Nesse texto, o autor fala de tudo aquilo que a falta de liberdade, durante o salazarismo, o inibiu de viver e de escrever.

Durante a visita à exposição, pode ver-se o filme que Margarida Gil dedicou a Carlos de oliveira, intitulado «Sobre o lado esquerdo» e ouvir-se poemas de Carlos de Oliveira ditos por Maria Barroso.

Legenda: página do texto «O Iceberg» em O Aprendiz deFeiticeiro, Publicações Dom Quixote, Março de 1971

E COMO DÓI!


29-8-68

Leio a notícia da invasão da Checoslováquia pela URSS etc. Não posso aceitar é impossível aceitar que isso se coadune com uma política marxista! E como dói! Merda!Não escrevo mais nada.

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

quinta-feira, 20 de julho de 2017

RECADOS


Na caixa de comentários de Horas Extraordinárias, o blogue de Maria do Rosário Pedreira, encontrei esta referência a um extraordinário livro de Leon Tolstoi:

«Uma pequena novela mas um dos livros da minha vida: A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi. Pode tornar-se longo porque apetece lê-lo muitas vezes.»

Sim, um livro que apetece ler muitas vezes.

O VELHO ESTAVA DE REGRESSO


O disco em que andávamos a trabalhar acabou mesmo por se chamar New Morning (o título de uma das canções que eu compusera para a peça do MacLeish) e acabou por ter uma fotografia minha e da Vickie. O disco de doze canções foi lançado e a onda de notícias começou a aparecer. Alguns críticos acharam que o álbum não tinha vitalidade e era sentimental, pobre de espírito. Pois sim. Outros cantaram glórias dizendo que o «velho» estava finalmente de regresso. Já era tempo. Isso também não queria dizer grande coisa. Tomei tudo como um bom sinal. Para ser exacto, o álbum em si mesmo não tinha ressonância específica com as algemas e cadeados que andavam a acorrentar o país, nada que ameaçasse o status quo. Tudo isto deu naquilo a que os críticos mais tarde chamariam o meu «período intermédio» e em muitos campos, este disco foi referido como o álbum de regresso – e foi. Seria o primeiro de muitos.

Bob Dylan em Crónicas

OLHAR AS CAPAS


Balada da Praia dos Cães

José Cardoso Pires
Capa. João Segurado
Edições «O Jornal», Lisboa, Novembro de 1982

Meia noite e meia. À saída do Condes, um Volkswagen da PSP à porta do Arcádia para despejar o capitão Maia Loureiro em sobretudo pêlo de camelo. Aquele de dia passeia-se pela cidade a comandar o trânsito com cara de mau e à noite esconde-se nas putas com cara pior. Lá mais para o espairecer vão chegar os Manos Tropelias que são condes de torre, cavalo e xeque-mate, e vai ser champanhe até vir o Dom Sebastião a cavalo marroquino. Andante, andante que um chefe de brigada contenta-se com chazinho para a sossega e já não vai nada mal.
O chá na Cervejaria Ribadouro; Isto não é uma cervejaria, é uma baía de cascas de tremoços com canecas à deriva. Chulos do Parque Mayer a atacarem o fastio na perna da boa santola, chauffeurs de praça a combinarem a sua bandeirada de jogo num casino clandestino para os lados de Arroios ou para Campolide que são bancas de entendidos por ode a polícia faz que não vê, Um galador de coristas a puxar fumaças à distância. A dona Lurdes, abortadeira. Mestres-de-obras a arrotar. Oh, senhores
Entre tanto desmazelo um chá e uma boa torrada sempre são outro asseio. Indispensáveis depois dum tecnicolor imperial, com czares e balalaicas e raspustines à bardalonga. Primeiros golos com o pão ensopado. Duas ou três frases da valsa do Tchaikovsky recordadas entre dentes.
Aí pelo meio da torrada chega o pintor Arnaldo que anda a cumprir a penitência de noivo da esfinge, aviando versos sociais ao domicílio. Faltava este. Não entra sequer: do alto do seu bem apessoado, luva e carnet na mão, declama a rima à porta e desanda. A nessa dos mestres-de-obras olha em redor a ver se percebe; pelo sim pelo não consulta mais umas lagostas.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


Sabemos quem somos mas não quem podemos ser.


William Shakespeare

À CONVERSA


Luís Miguel Cintra para José Tolentino Mendonça:

Olha, no final da missa, quando dizes “ide em paz e que o Senhor vos acompanhe” devias antes dizer “ide em paz mesmo que ninguém vos acompanhe.”

Comentário de Tolentino Mendonça:

Pode parecer um paradoxo, mas a oração torna-se mais vital quando tocamos o silêncio de Deus, quando os nossos pés tocam a orla da sua ausência.

NOTÍCIAS DO CIRCO


O TEMPO QUE SE ME ESCAPA


Carta de Jorge de Sena, datada de 30 de Março de 1970, para Eugénio de Andrade:

Parece-me que uma das manifestações da minha inquietação do meu cansaço, como do horror da vastidão de trabalho à minha frente para já (duas teses de doutoramento, dirigidas por mim, para ler, as provas das Líricas-terceira série, que começam a chegar, artigos para o dicionário do Cochofel, a edição dos «poemas ingleses» do Pessoa, a antologia do Pascoaes, a minha antologia pessoal, etc. para não falarmos do medonho índice de nomes do meu próximo volume camoniano… e da conclusão dos meus estudos de Ocidente, e do estudo a teu respeito), é este fugir para a companhia dos poetas de todos os tempos e lugares, que, descontando alguns amigos, são quem eu sinto mais intimamente à minha volta. O que, com o muito que sempre fui traduzindo nas horas vagas e não vagas, ou mentalmente eu traduzia no recordar de poemas que me fizeram sempre companhia, faz o volume correr o risco de inchar desmesuradamente… Sempre tudo faço na angústia de que o tempo se me escapa para o fazer, e não acaba o que quero fazer.


OLHAR AS CAPAS


A Minha Arma Não Perdoa

Mickey Spillane
Tradução: Ersílio Cardoso
Colecção vampiro nº 89
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- Ouve, minha filha – disse eu – tu não me conheces muito bem, mas há quem me conheça. Eles poderão medo aos cidadãos pacíficos, mas quando me virem aparecer, são eles que têm medo. Eles conhecem-me, sabes? Sabem muito bem que, para mim, as vidas deles não contam. Tenho uma arma e tenho-me servido dela… muitas vezes. Tenho uma licença, coisa que eles não têm e, se matar alguém, vou ao tribunal e explico porquê. Posso perder o emprego. Mas se eles puxarem o gatilho, vão parar à cadeira eléctrica. Eu gosto de matar esses filhos da mãe e faço-o sempre que tenho oportunidade. Eles sabem-no bem e é por isso que t~em medo de mim.

terça-feira, 18 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


Ler? Já não leio muito, se não é sobre o mar, de quem sou cada vez amigo mais íntimo.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Postal enviado de Szczecin, cidade polaca, pela Angelika e o Hans-Martin.

A CULPA FOI DA YOKO


Nunca gostei da pequena e sempre tive a impressão que terá sido Ioko Ono quem profundamente ajudou ao fim dos rapazes de Liverpool.

É certo que eles estavam ricos, cansados, enjoados de tanta gritaria, mas ela deu uma grande ajuda.

No dia 18 de Junho Paul McCartney fez 75 anos.

Sobre a efeméride, João Gobern escreveu um artigo no Diário de Notícias e finaliza-o lembrando um episódio que ele diz ser «pouco conhecido»: quando os Beatles se separaram, Paul proferiu a frase: « a culpa foi da Yoko».

Contudo, João Gobern lembrava ter sido Paul McCartney quem apresentou a japonesa a John Lennon.

Donde, mesmo que de forma involuntária, o verdadeiro «culpado»… terá sido  James Paul McCartney.

Recentemente, após uma reunião da National Music Publishers Association, organização que representa as editoras musicais, o seu diretor executivo, David Israelite, exibiu um vídeo de 1980 em que, Lennon argumenta que Yoko deveria ser considerada coautora de Imagine.

«A canção deveria ser reconhecida como uma faixa Lennon-Ono porque muito dela, a letra e o conceito, vieram da Yoko. Mas, naquela época, eu era egoísta, muito «macho», e daí ter omitido a sua contribuição para a canção.»

A «brincadeira» permite que a pequena, com esta decisão, consiga que só 70 anos após a sua morte, Imagine caia no domínio público.

O SALAZAR QUE RI


24 de Agosto de 1969

Um camponês alentejano, depois de ver o Marcello na inauguração duma barragem, sempre com os óculos a sorrirem:
- Este Salazar é mais simpático do que o outro. É o Salazar que ri.

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

OLHAR AS CAPAS


Amor, Só Amor, Tudo Amor

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: José Serrão
Editorial Caminho, Lisboa, Março de 1999

O vento, gélido e duro como a beira de um sino, torturava as janelas. Lá dentro. No quarto as vidraças escorriam. Aposento pequeno, onde só poderia haver como fonte de aquecimento o bafo de quem lá respirasse.
Na fachada da pensão, a dona anunciava ar condicionado na esperança de atrair turistas na época baixa. Sempre se estava ali quase em cima do mar. As vistas bastariam como compensação: o caldeirão das ondas de um Atlântico desgrenhado por aquele vento, sem pente que lhe alisasse o cabelo. Quase fim de Abril. A época não era baixa, mas baixíssima. Turistas, o que a D. Joana Bilhau sabia. Um desastre. Dias e dias sem uma cama ocupada. Era pôr lâmpadas de pequena voltagem, quase lamparinas, não ligar o ar condicionado, tudo era lucro. Cada um que se aquecesse.
E a eterna desculpa dela, os electricistas não vêm, passo a vida a telefonar para Óbidos, no Baleal não há ninguém que conserte nada, e eu que sofra com a desdita dos meus queridos hóspedes.
Sim, ela sofria! E de que maneira! Metia-se no seu pequeno quarto, ao rés-do-chão, punha o aquecedor eléctrico no máximo, a olhar as paradas militares na televisão, os heróis a partir para África, os jogos do Benfica, teatradas, escritores de cachimbo. O Eusébio deixara de jogar. Ali, viúva, a arredondar a reforma do marido, mecânico de submarinos, a morrer, o bandido, de uma facada num bar de Tânger, cheio de putas. Mas, morrer num bar de putas sempre tinha o seu chique. E tanto insistiu no chique que passou a ser conhecida pela mulher submarina.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


O que custa ma literatura é que só tarde demais se sabe se valeu a pena.


 Luís de Sttau Monteiro.

O SEGREDO É AMAR



O Poeta beija tudo, graças a Deus… E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade… E diz assim: «É preciso saber olhar…» E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos… E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás… E perde tempo (ganha tempo…) a namorar uma ovelha… E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de Sol depois de um dia chuvoso… E acha que tudo é importante… E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim… E escreveu uns versos que começam desta maneira: «O segredo é Amar…».
(…)
A gente tem vergonha de beijar tudo, de amar as flores, de se enternecer com os animais, de dar um passeio. Se beija uma árvore, é parvo; se traz uma flor na mão, é maricas; se se enternece, é fraco; se acaricia uma menina, põe nessa carícia o sexo; se vai a qualquer parte para passear e ver o mundo, faz constar que foi em viagem de estudo ou em viagem de negócios. Temos vergonha de ser sinceros, de que nos creiam parvos, ou maricas, ou fracos, ou lúbrico, ou estroinas. E então perdemos o melhor da nossa vida a ludibriar os outros e a insultar as nossas intenções mais belas e generosas.

Sebastião da Gama em Diário

OLHAR AS CAPAS


(Este) Rosto

Fiama Hasse Pais Brandão
Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1970

(O Sino)

Perde-se o verão, já crescem
à beira de ervas muros
ciprestes as faixas verdes
secas os abetos.

Pelas paisagens entra-se na fala:
nomeio os pastos térreos
as campas vivas (o cemitério longe
é o real) tonalidades
da tarde os vários bandos
velos de lã (rebanhos
nesses campos são reais).

Antes do tempo perde-se esse tempo
- o pensamento vive
que o destrói – secam os fenos
o sino irrompe (tange o seu fim
o tempo a realidade).

domingo, 16 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


Deste-me a linguagem onde morar.

QUANTOS NAVIOS



Quantos navios
vejo eu passar
estendido nos bancos dos jardins

É feriado

Jogam as crianças correndo
atrás das
sombras
de pássaros

O sol
bate na água
nas folhas
e nos meus olhos

seduzidos

E eu adormeço
deixando
que os navios
passem
lentos

sobre mim

António Reis em Poemas Quotidianos

Nota do editor: os Poemas Quotidianos de António Reis não têm títulos. Na edição da Portugália Editora de Janeiro de 1967 estão numerados de 1 a 100. Este «Quantos navios» é o número 62.

REVOLUÇÕES DE OPERETA


Foi durante este meu primeiro e inútil ano escolar universitário (1925-1926) que se desencadeou a revolução normalmente designada por “28 de Maio” ou, mais pomposamente por quem a aplaudiu, por “Revolução Nacional”. Foi uma daquelas revoluções originais, de opereta, que talvez só em Portugal se verifiquem, em que não se dão tiros nem se mata ninguém por já estar tudo a cair de podre. As populações confraternizam, dão morras ao que estava e vivas ao que chega. E o que chegou, na ocasião, foi um general em cima de um cavalo e as tropas a marcharem atrás dele. Assim começou a 2ª República que em Portugal se instalou durante quarenta e oito anos e cuja longevidade se deveu à entrada em cena de um homem natural de Santa Comba Dão chamado Oliveira Salazar. Não sei se vocês, meus queridos tetranetos, já alguma vez ouviram falar dele. Já morreu.

Rómulo de Carvalho em Memórias

sábado, 15 de julho de 2017

VENDERAM-ME, SUPONDO QUE EU ESTAVA À VENDA


Esta é a última carta de José Saramago, datada de 8 de Novembro de 1971, aquela em que Saramago confirma a Miguéis a saída da editora Estúdios Cor:

Querido Miguéis:

Se um homem vai a passar junto da Torre de Pisa e a torre lhe cai em cima e o esmaga, todo o mundo achará natural, pois a torre já estava inclinada. Até se pensará que há certa beleza em ficar esborrachado debaixo de tão ilustres pedras.
Mas se em cima desse homem desaba, sem aviso prévio, um enorme monte de merda, todo o mundo ficará espantado, pois não são costumeiros tais desabamentos, nem ninguém será capaz de perceber donde veio tão grande quantidade de trampa.
Estas considerações escatológicas têm a seguinte explicação: demiti-me da editora em virtude de me terem criado uma situação vexatória, qual seja a demissão de um novo director literário (Natália Correia), imposto pelo grupo financeiro que tomou posição na firma.
Tudo isto se passou na minha ausência de férias (entre 15 de Outubro e 2 de Novembro), e depois de ao longo de anos se ter dito aqui, em todos os tons, que nunca se quereria um director literário realmente director. E quando a questão foi posta aos Srs. Canhão e Correia, estes senhores não tiveram a coragem moral mínima de defenderem a minha posição aqui dentro, o meu trabalho de quinze anos. Aceitaram tudo a troco do prato de feijões. Venderam-me, supondo que eu estava à venda. No que se enganaram.
Aliás, tudo isto já vem de longe. Por alguma razão as suas cartas têm caído num poço de silêncio. Tenho-me recusado a tratar de certos assuntos enquanto toda a minha situação na editora não fosse esclarecida de vez. Acabou por sê-lo agora, em termos que, confesso, não esperava. Porque a safadeza ainda foi maior que a minha ingenuidade.
Saio no dia 31 de Dezembro para entregar, com tempo, os assuntos noutras mãos, mas foi a partir do dia 3 de Novembro que deixei de tratar de qualquer questão para além do que considero ser minha estrita obrigação. Outras pessoas comunicarão consigo para tratar dos seus assuntos.
E é tudo. Se no dia em que daqui sair não tiver ainda (já) outro emprego, começo o ano da estaca zero, completamente desprovido. Mas continuo a ter uma grande consideração por mim mesmo.

Em Correspondência