domingo, 10 de junho de 2012

LIVROS ENTRE AZEITE, BACALHAU E VINHO A MARTELO


No tempo da ditadura há casos curiosos de capitalistas e empresários portugueses que  ajudaram escritores e artistas, que eram da oposição, por motivos nunca declarados e que, agora, não sei como se podem explicar.

O industrial Manuel Vinhas ajudou artistas como Júlio Pomar, Vespeira, escritores como Ary dos Santos, Mário Cesariny de Vasconcelos, Alexandre O’Neill, Luiz Pacheco, financiou Raul Solnado para a construção do Teatro João Villaret, cedeu as instalações de um antigo armazém, ao lado da Cervejaria Portugália, pertença da Sociedade Central de Cervejas, para que A Comuna apresentasse os seus espectáculos.

Luiz Pacheco dedicou-lhe o seu livro Exercícios de Estilo (Editorial Estampa, Lisboa 1971) e numa Carta de Longe fala da ajuda que Vinhas lhe prestou:

Do mecenas Manuel Vinhas, falo pelo que me toca. Durante anos, mais de dez, auxiliou-me em dinheiros, renda de casa pontualmente paga, bolsa de estudo em livros, máquina de escrever, a minha charrua, oferecida. Sem me conhecer pessoalmente, apenas alertado para a minha difícil situação económica por um Amigo comum.

Nunca tive nem creio que venha a ter mecenas tão delicado e escrupuloso. Nunca se esquivou quando a ele tive de recorrer, e apenas o fazia em última instância, e nunca, também, me deu conselhos ou sugestões que interferissem no meu trabalho.

“O Mecenas paga, não dá ordens”, costumava dizer Mestre Almada Negreiros.

Claro que ninguém está a ver os merceeiros Belmiro de Azevedo, Soares dos Santos, ou o sr. José de Mello a terem desvios deste jaez!...

Os proprietários da Sociedade Abel Pereira Fonseca possuíam a Editorial Ulisseia e o Diário Ilustrado.

Esta Praça da Canção , de Manuel Alegre, um livro que marcou toda uma geração, é o nº 18 da Colecção Poesia e Ensaio, uma belíssima e importante colecção, publicada com orientação gráfica de Espiga Pinto e que viu alguns livros apreendidos pela PIDE/DGS.

A Praça da Canção foi publicada, em 1965, pela revista Vértice, em exclusivo para os seus assinantes. Os poucos exemplares que apareceram nas livrarias foram, de imediato, apreendidos pela polícia política.
  
Esta 2ª edição, prefaciada por Mário Sacramento e editada pela Ulisseia, também foi apreendida pela PIDE/DGS, mas aqui, com a conivência de alguns livreiros, foi possível que grande parte não caísse nas suas pérfidas mãos.

Servindo-me do livro Memórias Vivas do Jornalismo, sigo até à entrevista de Edite Soeiro para contar a história da Ulisseia, que amanhã se completará com um depoimento de Vítor Silva Tavares, para depois, Roby Amorim, contar a história do Diário Ilustrado:

Em 1964 fui convidada para orientar as edições Ulisseia. Aceitei com certa relutância, mas o ordenado era tentador. Assegurei a colaboração do Vítor Silva Tavares, actual editor das publicações & etc., o qual já trabalhara comigo no Intransigente e que teve papel preponderante na selecção de autores. Estive lá 30 meses, mas não tardei a verificar que os patrões não queriam saber da editora para nada e pouco se lhes dava que imprimisse obras-primas ou fotocópias. A única coisa que realmente pretendiam era que aquilo não desse prejuízo. Efectivamente, a Ulisseia deixou de dar prejuízo, mas nós tínhamos projectos mais ambiciosos. Por exemplo, queríamos lançar uma colecção chamada Pelicano, para que os estudantes universitários pudessem deixar as miseráveis sebentas que utilizavam, por falta de alternativa. Este e outros projectos reclamavam um forte investimento, pelo que não podia ser decidido sem o aval dos proprietários da editora, que eram da firma Abel Pereira da Fonseca. Nunca conseguimos fazer com eles uma reunião decente, para lhes apresentarmos os nossos projectos e tomarmos deliberações em conjunto. Entre o bacalhau, o vinho, o arroz e todas essas coisas, tinham aquela preciosidade que era a Ulisseia, para tratar da qual não dispunham de tempo. Por isso, resolvi demitir-me.