sábado, 28 de maio de 2016

JANEIRO 74


toda a noite eu podia ouvir os comboios
e sabia que as grandes fomes estavam a chegar.

todas as palavras eram já estranhas
e era tempo de partir --

uma extrema solidão marcava a minha vida.

nunca fora tão insuportável a tua morte
nem tão longínquos os pequenos barcos do rio.

as minhas mãos cheiram fortemente a tabaco.
frenéticas e magras
dir-se-iam que esperam o teu regresso ou o sol
ou a tua cabeça serena.

nada poderá valer-nos.

tarda a Imensa Revolução
e os belos pensamentos ardem em nossas cabeças
afinal tão infantis.

em 1974 eu podia ouvir os comboios toda a noite.

da janela aberta de um 4.º andar suburbano
sob um céu pardo de inverno
eu avançava possuído de terror na minha insónia.

abandonara os poemas e as comovedoras histórias da Galileia.

por vezes bebia demasiado
dava longos passeios e gostava de futebol.

toda a noite eu ouvia os comboios seguirem para o norte e
para o sul
e sabia que as grandes fomes estavam a chegar.

José Agostinho Baptista em deste lado onde

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

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