sábado, 22 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Relâmpago

Nº 11
Número dedicado a Carlos de Oliveira
Colaborações:
José Ricardo Nunes, Manuel Gusmão, Pedro Eiras, Rosa Maria Martelo, Armando Silva carvalho, Augusto Abelaira, Eduarda Dionísio, Eduardo Prado Coelho, Fernando Lopes, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz, José Manuel Mendes, Margarida Gil, Nuno Júdice, Urbano Tavares Rodrigues
Capa: Nuno Marques Mendes
Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro de 2002

De súbito, o Carlos de Oliveira pediu-me:
- Você por acaso tem aí um lápis?
Aquele “por acaso” impressionou-me, era indicativo de que, para ele, só por acidente um escritor usaria lápis (então eu ainda não publicara nenhum livro). E fui perguntando:
- Você esqueceu-se?
Para meu espanto, revelou-me que nunca, por nunca ser, trazia um lápis (ou caneta) na algibeira. O seu lápis era a memória, construía as poesias “na cabeça”. Alinhava e desalinhava as palavras na memória durante o dia, durante as horas do dia, e quando chegava a casa, era somente escrevê-las. Somente? Escrevê-las, reescrevê-las, quem conhece o Carlos sabe como é.
Então, com o lápis, para depois a Ângela as passar à máquina. Quantas vezes?

(Do texto de Augusto Abelaira)

NÃO SOMOS NÓS QUE DECIDIMOS


Nunca controlamos completamente a curvatura da nossa carreira. Os acontecimentos históricos e culturais criam uma oportunidade, determinada canção vem-nos parar às mãos e abre-se uma janela para o impacto, a comunicação, o sucesso, a expansão da nossa visão musical. Pode fechar-se de imediato para nunca se reabrir. Não somos nós que decidimos quando chegou o nosso tempo. Podemos ter trabalhado arduamente, honestamente, visando – de forma consciente ou inconsciente – uma certa posição, mas nunca sabemos mesmo se o nosso «grande» momento vai chegar. E de repente… ele aí está.

Bruce Springsteen em Born to Run

sexta-feira, 21 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Carlos de Oliveira: A Parte Submersa do Iceberg
Exposição

Curadoria; Osvaldo Silvestre
Edição Museu do Neo-Realismo e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira
Vila Franca de Xira, Março de 2017

Carlos de Oliveira escreveu pouco; no entanto, tudo o que escreveu está impregnado de uma intensidade admirável, deixando-nos uma obra relativamente curta mas profundamente coesa, composta por vários objectos literários que, todos eles, contêm em si imensos mundos por explorar.


Do catálogo

A PARTE SUBMERSA DO ICEBERG


Até 29 de Outubro, podem ver no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, a exposição «Carlos de Oliveira: a parte submersa do iceberg».

O título da exposição, com curadoria de Osvaldo Manuel Silvestre, provém de um texto de Carlos de Oliveira incluído no volume O aprendiz deFeiticeiro. Nesse texto, o autor fala de tudo aquilo que a falta de liberdade, durante o salazarismo, o inibiu de viver e de escrever.

Durante a visita à exposição, pode ver-se o filme que Margarida Gil dedicou a Carlos de oliveira, intitulado «Sobre o lado esquerdo» e ouvir-se poemas de Carlos de Oliveira ditos por Maria Barroso.

Legenda: página do texto «O Iceberg» em O Aprendiz deFeiticeiro, Publicações Dom Quixote, Março de 1971

E COMO DÓI!


29-8-68

Leio a notícia da invasão da Checoslováquia pela URSS etc. Não posso aceitar é impossível aceitar que isso se coadune com uma política marxista! E como dói! Merda!Não escrevo mais nada.

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

quinta-feira, 20 de julho de 2017

RECADOS


Na caixa de comentários de Horas Extraordinárias, o blogue de Maria do Rosário Pedreira, encontrei esta referência a um extraordinário livro de Leon Tolstoi:

«Uma pequena novela mas um dos livros da minha vida: A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi. Pode tornar-se longo porque apetece lê-lo muitas vezes.»

Sim, um livro que apetece ler muitas vezes.

O VELHO ESTAVA DE REGRESSO


O disco em que andávamos a trabalhar acabou mesmo por se chamar New Morning (o título de uma das canções que eu compusera para a peça do MacLeish) e acabou por ter uma fotografia minha e da Vickie. O disco de doze canções foi lançado e a onda de notícias começou a aparecer. Alguns críticos acharam que o álbum não tinha vitalidade e era sentimental, pobre de espírito. Pois sim. Outros cantaram glórias dizendo que o «velho» estava finalmente de regresso. Já era tempo. Isso também não queria dizer grande coisa. Tomei tudo como um bom sinal. Para ser exacto, o álbum em si mesmo não tinha ressonância específica com as algemas e cadeados que andavam a acorrentar o país, nada que ameaçasse o status quo. Tudo isto deu naquilo a que os críticos mais tarde chamariam o meu «período intermédio» e em muitos campos, este disco foi referido como o álbum de regresso – e foi. Seria o primeiro de muitos.

Bob Dylan em Crónicas

OLHAR AS CAPAS


Balada da Praia dos Cães

José Cardoso Pires
Capa. João Segurado
Edições «O Jornal», Lisboa, Novembro de 1982

Meia noite e meia. À saída do Condes, um Volkswagen da PSP à porta do Arcádia para despejar o capitão Maia Loureiro em sobretudo pêlo de camelo. Aquele de dia passeia-se pela cidade a comandar o trânsito com cara de mau e à noite esconde-se nas putas com cara pior. Lá mais para o espairecer vão chegar os Manos Tropelias que são condes de torre, cavalo e xeque-mate, e vai ser champanhe até vir o Dom Sebastião a cavalo marroquino. Andante, andante que um chefe de brigada contenta-se com chazinho para a sossega e já não vai nada mal.
O chá na Cervejaria Ribadouro; Isto não é uma cervejaria, é uma baía de cascas de tremoços com canecas à deriva. Chulos do Parque Mayer a atacarem o fastio na perna da boa santola, chauffeurs de praça a combinarem a sua bandeirada de jogo num casino clandestino para os lados de Arroios ou para Campolide que são bancas de entendidos por ode a polícia faz que não vê, Um galador de coristas a puxar fumaças à distância. A dona Lurdes, abortadeira. Mestres-de-obras a arrotar. Oh, senhores
Entre tanto desmazelo um chá e uma boa torrada sempre são outro asseio. Indispensáveis depois dum tecnicolor imperial, com czares e balalaicas e raspustines à bardalonga. Primeiros golos com o pão ensopado. Duas ou três frases da valsa do Tchaikovsky recordadas entre dentes.
Aí pelo meio da torrada chega o pintor Arnaldo que anda a cumprir a penitência de noivo da esfinge, aviando versos sociais ao domicílio. Faltava este. Não entra sequer: do alto do seu bem apessoado, luva e carnet na mão, declama a rima à porta e desanda. A nessa dos mestres-de-obras olha em redor a ver se percebe; pelo sim pelo não consulta mais umas lagostas.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


Sabemos quem somos mas não quem podemos ser.


William Shakespeare

À CONVERSA


Luís Miguel Cintra para José Tolentino Mendonça:

Olha, no final da missa, quando dizes “ide em paz e que o Senhor vos acompanhe” devias antes dizer “ide em paz mesmo que ninguém vos acompanhe.”

Comentário de Tolentino Mendonça:

Pode parecer um paradoxo, mas a oração torna-se mais vital quando tocamos o silêncio de Deus, quando os nossos pés tocam a orla da sua ausência.

NOTÍCIAS DO CIRCO


O TEMPO QUE SE ME ESCAPA


Carta de Jorge de Sena, datada de 30 de Março de 1970, para Eugénio de Andrade:

Parece-me que uma das manifestações da minha inquietação do meu cansaço, como do horror da vastidão de trabalho à minha frente para já (duas teses de doutoramento, dirigidas por mim, para ler, as provas das Líricas-terceira série, que começam a chegar, artigos para o dicionário do Cochofel, a edição dos «poemas ingleses» do Pessoa, a antologia do Pascoaes, a minha antologia pessoal, etc. para não falarmos do medonho índice de nomes do meu próximo volume camoniano… e da conclusão dos meus estudos de Ocidente, e do estudo a teu respeito), é este fugir para a companhia dos poetas de todos os tempos e lugares, que, descontando alguns amigos, são quem eu sinto mais intimamente à minha volta. O que, com o muito que sempre fui traduzindo nas horas vagas e não vagas, ou mentalmente eu traduzia no recordar de poemas que me fizeram sempre companhia, faz o volume correr o risco de inchar desmesuradamente… Sempre tudo faço na angústia de que o tempo se me escapa para o fazer, e não acaba o que quero fazer.


OLHAR AS CAPAS


A Minha Arma Não Perdoa

Mickey Spillane
Tradução: Ersílio Cardoso
Colecção vampiro nº 89
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- Ouve, minha filha – disse eu – tu não me conheces muito bem, mas há quem me conheça. Eles poderão medo aos cidadãos pacíficos, mas quando me virem aparecer, são eles que têm medo. Eles conhecem-me, sabes? Sabem muito bem que, para mim, as vidas deles não contam. Tenho uma arma e tenho-me servido dela… muitas vezes. Tenho uma licença, coisa que eles não têm e, se matar alguém, vou ao tribunal e explico porquê. Posso perder o emprego. Mas se eles puxarem o gatilho, vão parar à cadeira eléctrica. Eu gosto de matar esses filhos da mãe e faço-o sempre que tenho oportunidade. Eles sabem-no bem e é por isso que t~em medo de mim.

terça-feira, 18 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


Ler? Já não leio muito, se não é sobre o mar, de quem sou cada vez amigo mais íntimo.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Postal enviado de Szczecin, cidade polaca, pela Angelika e o Hans-Martin.

A CULPA FOI DA YOKO


Nunca gostei da pequena e sempre tive a impressão que terá sido Ioko Ono quem profundamente ajudou ao fim dos rapazes de Liverpool.

É certo que eles estavam ricos, cansados, enjoados de tanta gritaria, mas ela deu uma grande ajuda.

No dia 18 de Junho Paul McCartney fez 75 anos.

Sobre a efeméride, João Gobern escreveu um artigo no Diário de Notícias e finaliza-o lembrando um episódio que ele diz ser «pouco conhecido»: quando os Beatles se separaram, Paul proferiu a frase: « a culpa foi da Yoko».

Contudo, João Gobern lembrava ter sido Paul McCartney quem apresentou a japonesa a John Lennon.

Donde, mesmo que de forma involuntária, o verdadeiro «culpado»… terá sido  James Paul McCartney.

Recentemente, após uma reunião da National Music Publishers Association, organização que representa as editoras musicais, o seu diretor executivo, David Israelite, exibiu um vídeo de 1980 em que, Lennon argumenta que Yoko deveria ser considerada coautora de Imagine.

«A canção deveria ser reconhecida como uma faixa Lennon-Ono porque muito dela, a letra e o conceito, vieram da Yoko. Mas, naquela época, eu era egoísta, muito «macho», e daí ter omitido a sua contribuição para a canção.»

A «brincadeira» permite que a pequena, com esta decisão, consiga que só 70 anos após a sua morte, Imagine caia no domínio público.

O SALAZAR QUE RI


24 de Agosto de 1969

Um camponês alentejano, depois de ver o Marcello na inauguração duma barragem, sempre com os óculos a sorrirem:
- Este Salazar é mais simpático do que o outro. É o Salazar que ri.

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

OLHAR AS CAPAS


Amor, Só Amor, Tudo Amor

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: José Serrão
Editorial Caminho, Lisboa, Março de 1999

O vento, gélido e duro como a beira de um sino, torturava as janelas. Lá dentro. No quarto as vidraças escorriam. Aposento pequeno, onde só poderia haver como fonte de aquecimento o bafo de quem lá respirasse.
Na fachada da pensão, a dona anunciava ar condicionado na esperança de atrair turistas na época baixa. Sempre se estava ali quase em cima do mar. As vistas bastariam como compensação: o caldeirão das ondas de um Atlântico desgrenhado por aquele vento, sem pente que lhe alisasse o cabelo. Quase fim de Abril. A época não era baixa, mas baixíssima. Turistas, o que a D. Joana Bilhau sabia. Um desastre. Dias e dias sem uma cama ocupada. Era pôr lâmpadas de pequena voltagem, quase lamparinas, não ligar o ar condicionado, tudo era lucro. Cada um que se aquecesse.
E a eterna desculpa dela, os electricistas não vêm, passo a vida a telefonar para Óbidos, no Baleal não há ninguém que conserte nada, e eu que sofra com a desdita dos meus queridos hóspedes.
Sim, ela sofria! E de que maneira! Metia-se no seu pequeno quarto, ao rés-do-chão, punha o aquecedor eléctrico no máximo, a olhar as paradas militares na televisão, os heróis a partir para África, os jogos do Benfica, teatradas, escritores de cachimbo. O Eusébio deixara de jogar. Ali, viúva, a arredondar a reforma do marido, mecânico de submarinos, a morrer, o bandido, de uma facada num bar de Tânger, cheio de putas. Mas, morrer num bar de putas sempre tinha o seu chique. E tanto insistiu no chique que passou a ser conhecida pela mulher submarina.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


O que custa ma literatura é que só tarde demais se sabe se valeu a pena.


 Luís de Sttau Monteiro.

O SEGREDO É AMAR



O Poeta beija tudo, graças a Deus… E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade… E diz assim: «É preciso saber olhar…» E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos… E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás… E perde tempo (ganha tempo…) a namorar uma ovelha… E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de Sol depois de um dia chuvoso… E acha que tudo é importante… E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim… E escreveu uns versos que começam desta maneira: «O segredo é Amar…».
(…)
A gente tem vergonha de beijar tudo, de amar as flores, de se enternecer com os animais, de dar um passeio. Se beija uma árvore, é parvo; se traz uma flor na mão, é maricas; se se enternece, é fraco; se acaricia uma menina, põe nessa carícia o sexo; se vai a qualquer parte para passear e ver o mundo, faz constar que foi em viagem de estudo ou em viagem de negócios. Temos vergonha de ser sinceros, de que nos creiam parvos, ou maricas, ou fracos, ou lúbrico, ou estroinas. E então perdemos o melhor da nossa vida a ludibriar os outros e a insultar as nossas intenções mais belas e generosas.

Sebastião da Gama em Diário

OLHAR AS CAPAS


(Este) Rosto

Fiama Hasse Pais Brandão
Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1970

(O Sino)

Perde-se o verão, já crescem
à beira de ervas muros
ciprestes as faixas verdes
secas os abetos.

Pelas paisagens entra-se na fala:
nomeio os pastos térreos
as campas vivas (o cemitério longe
é o real) tonalidades
da tarde os vários bandos
velos de lã (rebanhos
nesses campos são reais).

Antes do tempo perde-se esse tempo
- o pensamento vive
que o destrói – secam os fenos
o sino irrompe (tange o seu fim
o tempo a realidade).

domingo, 16 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


Deste-me a linguagem onde morar.

QUANTOS NAVIOS



Quantos navios
vejo eu passar
estendido nos bancos dos jardins

É feriado

Jogam as crianças correndo
atrás das
sombras
de pássaros

O sol
bate na água
nas folhas
e nos meus olhos

seduzidos

E eu adormeço
deixando
que os navios
passem
lentos

sobre mim

António Reis em Poemas Quotidianos

Nota do editor: os Poemas Quotidianos de António Reis não têm títulos. Na edição da Portugália Editora de Janeiro de 1967 estão numerados de 1 a 100. Este «Quantos navios» é o número 62.

REVOLUÇÕES DE OPERETA


Foi durante este meu primeiro e inútil ano escolar universitário (1925-1926) que se desencadeou a revolução normalmente designada por “28 de Maio” ou, mais pomposamente por quem a aplaudiu, por “Revolução Nacional”. Foi uma daquelas revoluções originais, de opereta, que talvez só em Portugal se verifiquem, em que não se dão tiros nem se mata ninguém por já estar tudo a cair de podre. As populações confraternizam, dão morras ao que estava e vivas ao que chega. E o que chegou, na ocasião, foi um general em cima de um cavalo e as tropas a marcharem atrás dele. Assim começou a 2ª República que em Portugal se instalou durante quarenta e oito anos e cuja longevidade se deveu à entrada em cena de um homem natural de Santa Comba Dão chamado Oliveira Salazar. Não sei se vocês, meus queridos tetranetos, já alguma vez ouviram falar dele. Já morreu.

Rómulo de Carvalho em Memórias

sábado, 15 de julho de 2017

VENDERAM-ME, SUPONDO QUE EU ESTAVA À VENDA


Esta é a última carta de José Saramago, datada de 8 de Novembro de 1971, aquela em que Saramago confirma a Miguéis a saída da editora Estúdios Cor:

Querido Miguéis:

Se um homem vai a passar junto da Torre de Pisa e a torre lhe cai em cima e o esmaga, todo o mundo achará natural, pois a torre já estava inclinada. Até se pensará que há certa beleza em ficar esborrachado debaixo de tão ilustres pedras.
Mas se em cima desse homem desaba, sem aviso prévio, um enorme monte de merda, todo o mundo ficará espantado, pois não são costumeiros tais desabamentos, nem ninguém será capaz de perceber donde veio tão grande quantidade de trampa.
Estas considerações escatológicas têm a seguinte explicação: demiti-me da editora em virtude de me terem criado uma situação vexatória, qual seja a demissão de um novo director literário (Natália Correia), imposto pelo grupo financeiro que tomou posição na firma.
Tudo isto se passou na minha ausência de férias (entre 15 de Outubro e 2 de Novembro), e depois de ao longo de anos se ter dito aqui, em todos os tons, que nunca se quereria um director literário realmente director. E quando a questão foi posta aos Srs. Canhão e Correia, estes senhores não tiveram a coragem moral mínima de defenderem a minha posição aqui dentro, o meu trabalho de quinze anos. Aceitaram tudo a troco do prato de feijões. Venderam-me, supondo que eu estava à venda. No que se enganaram.
Aliás, tudo isto já vem de longe. Por alguma razão as suas cartas têm caído num poço de silêncio. Tenho-me recusado a tratar de certos assuntos enquanto toda a minha situação na editora não fosse esclarecida de vez. Acabou por sê-lo agora, em termos que, confesso, não esperava. Porque a safadeza ainda foi maior que a minha ingenuidade.
Saio no dia 31 de Dezembro para entregar, com tempo, os assuntos noutras mãos, mas foi a partir do dia 3 de Novembro que deixei de tratar de qualquer questão para além do que considero ser minha estrita obrigação. Outras pessoas comunicarão consigo para tratar dos seus assuntos.
E é tudo. Se no dia em que daqui sair não tiver ainda (já) outro emprego, começo o ano da estaca zero, completamente desprovido. Mas continuo a ter uma grande consideração por mim mesmo.

Em Correspondência

E PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Enquanto as grandes emoções vou-me entretendo com bolachas recheadas.
Cada caixa tem uma imagem de um jogador do Glorioso.
Escolhi o Jonas.
Com calma - há cuidados a ter... -  irei adquirindo as restantes caixas.

SARAMAGUEANDO


Tanto quanto se sabe, os jogadores de futebol não são dados a leituras de livros, do que quer que seja, talvez os diários desportivos façam parte dos seus interesses de leitura.

São mais de ouvir músicas e jogos de telemóvel, jogarem uma suecada ou coisa semelhante.

Quando perdem um jogo têm sempre uma frase engatilhada:

«É preciso levantar a cabeça e pensar no próximo jogo.»

Que seja!

Mas agora, o jovem Francisco Geraldes, jogador do Sporting, foi apanhado no banco de suplentes, e antes de um jogo amigável com o Valência, a ler O Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago.

A Fundação José Saramago aproveitou a jogada, sinalizou outros livros de Saramago, meteu-os num envelope e colocou uma mensagem:

«Francisco Geraldes, quando voltarem estarão mais reforços à espera! Um abraço, boa época e boas leituras!»

Quando chegar à página 226 o jovem Francisco Geraldes, quem quer que seja, há-de ler:


«A mulher do médico vai lendo os letreiros das ruas, lembra-se de uns, de outros não, e chega um momento em que compreende que se desorientou e perdeu. Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem a ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixou-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejam os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar pratos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele.»

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


No Cinema Império, de 15 a 30 de Julho de 1974, aconteceu o Ciclo «O Cinema Proibido», organizado pela Casa da Imprensa, com sessões diárias às 15,15 e 21,30 horas.

Aos sábados e domingos houve também sessões às 18,30.

O ciclo tinha um cartaz e programa. Andei à procura mas não encontrei. Apenas um papelinho que é uma lista dos filmes, não lembro se todos ou se aqueles que queria ir ver.

Dr. Strangelove, 1964 – Stanley Kubrik
Inquérito a um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, 1970 – Elio Petri
Estado de Sitio, 1972 - Costa-Gravas
Disparem Sobre o Pianista – François Truffaut
O Dia da Violência, 1970 – Roger Corman
O Desprezo, 1963 – Jean-Luc Godard
A Hora do Lobo, 1967 - Ingmar Bergman
Z, 1969 – Costa Gravas
Sofia e a Educação Sexual, 1973 de Eduardo Geada

Tenho a ideia de que está por fazer o papel que a Casa da Imprensa desempenhou no tempo da ditadura com as suas diversas organizações culturais.
Os Ciclos de Cinema a Noite do Fado, um enorme êxito de popularidade e sem esquecer o I Encontro da Canção Portuguesa, no Coliseu dos Recreios, na noite de 29 de Março, quando um coro de cinco mil vozes entoou Grândola, Vila Morena, sem saber o que estava para acontecer mas a acreditar que num qualquer dia das surpresas.

Os serviços de censura exigiram que todas as letras de canções que fossem cantadas tivessem exame prévio. Não permitiram que José Afonso cantasse A Morte Saiu à Rua, Venham mais Cinco, Menina dos Olhos Tristes e apenas autorizaram Milho Verde e a Grândola.


Foi também nessa noite memorável que quando José Carlos Ary dos Santos, subiu ao palco, por causa das suas participações nos Festivais da Canção da RTP, foi vaiado e, com a frontalidade habitual, disse: «Eu venho para dizer poesia. Se não gostam, manifestem-se no fim». Depois de declamar SARL abandonou o palco debaixo, apenas, de aplausos.

Voltando aos filmes.

Ao tempo, não tinha visto nenhum dos filmes programados e acabei por não assistir a qualquer sessão.

Nas ruas, nas fábricas, nos sindicatos, nas escolas, eram outros os filmes e nós os protagonistas donde pode ressaltar a ideia de que podemos ser qualquer coisa como uma espécie de cinema ambulante.





Legenda: Peter Sellers em Dr. Strangelove e o final do filme, com Vera Lynn a cantar We'll Meet Again

sexta-feira, 14 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


O passado é o reino dos fragmentos.

José Saramago

O MAIOR ÁLBUM DA MINHA CARREIRA


Às vezes os discos ditam as suas próprias personalidades e nós temos simplesmente de os deixar ser o que são. Era o caso de Born in the USA. Quando finalmente parei com as minhas hesitações, peguei no melhor daquilo que tinha e avancei para o que seria o maior álbum da minha carreira. Born in the USA mudou a minha vida, deu-me um público alargado, forçou-me a pensar ainda mais sobre a forma como eu apresentava a minha música e pôs-me por um breve instante no centro do mundo da pop.

Bruce Springsteen em Born to Run

NOTÍCIAS DO CIRCO


A Altice chegou a acordo para a compra da Media Capital, dona da TVI, da Rádio Comercial e de outros meios, por 440 milhões de euros. num momento em que na PT/MEO se luta pelos postos de trabalho.

 A Altice comprou a PT Portugal à operadora brasileira Oi, em 2015, por 5,6 mil milhões de euros mercê da competentíssima política de privatizações do governo de direita de Pedro Passos Coelho que bolsou que o negócio era «seguramente bom para a economia portuguesa».

A rapaziada da Altice assegurou que não iria desencadear despedimentos colectivos e que respeitaria os sindicatos da PT.

Eis senão quando, a PT pediu ao governo para realizar um despedimento colectivo pois pretendia desfazer-se de três mil trabalhadores. 

A lei não o permite, mas eles não vão desistir e já mobilizaram os assessores para encontrarem janelas fraudulentas para que possam atingir os seus fins.

Os trabalhadores têm uma greve agendada para o próximo dia 21. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Agustina Bessa-Luís nunca demonstrou uma grande simpatia pelas adaptações que Manoel de Oliveira fez de alguns dos seus livros.

«Ela gosta de não gostar, eu gosto que ela não goste. É um conflito artístico. Eu não posso filmar o livro. Ela quer que eu filme o livro. Mas impossível. Faço cinema. Não faço literatura.» 

Legenda: fotograma de Vale Abraão

EXISTEM PALAVRAS


Existem palavras por nós ignoradas
vivem ao lado das que mais usamos
e nunca sabemos quando
uma delas em fuga
com a calibração precisa
surgirá para transtornar a neutralidade

a língua arrasta a noite ancestral
um vento de neve
cheio de folhas mortas
a idade que possuímos em segredo
sem que nenhuma documentação civil 
a detecte

as línguas são portas
que se abrem rangendo
para coisas que não existem

José Tolentino Mendonça, poema colocado por Nicolau Santos na página de Economia do Expresso, 17 de Junho de 2017

Legenda: pintura de George Dunlop Leslie

quarta-feira, 12 de julho de 2017

SÓ NA POBREZA...


Só na pobreza se pode dar valor ao necessário.

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

Legenda: fotografia de Vivian Maier

DO MEDO


É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)

Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou

no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida

é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte

Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)

desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite

sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins

e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne

Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor

há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem

Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis? 

Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte

Luiza Neto Jorge

OLHAR AS CAPAS


A Dama do Lago

Raymomd Chandler
Tradução: Ruth Belger
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 135
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- Este negócio da polícia – observou quase afável – é um problema levado dos diabos. É bastante parecido com a política. Exige pessoas do mais elevado grau moral, mas nada tem que possa atrair pessoas desse grau. Por isso temos de nos servir com o que aparece…

terça-feira, 11 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


O meu avô afiava os lápis com um canivete, muito devagarinho. 

NAS TREVAS JÁ EU ESTAVA


Tinha assumido que quando os críticos rejeitassem o meu trabalho, o mesmo iria acontecer comigo, que o público me iria esquecer. Onde é que eu estava com a cabeça? Por fim, tive de enfrentar a música - voltar às actuações – a tão esperada reunião para a publicidade sensacionalista, excursões de ciganos – a mudar de ideologias como se elas fossem pneus, sapatos, cordas de guitarra. Qual é a diferença? Desde que as minhas certezas permanecessem intactas, não devia nada a ninguém. Não ia afundar-me mais nas trevas por ninguém. Nas trevas já eu estava. A minha família era a minha luz e eu ia proteger essa luz a qualquer preço. Era aí que estava a minha dedicação, em primeiro, em último, e em todos os lugares intermédios. O que eu devia ao resto do mundo? Nada. Absolutamente nada… A imprensa? Achei que se deve mentir-lhes. Para o público, comecei a ser o mais bucólico e mundano que consegui. Na vida real comecei a fazer as coisas de que mais gostava e era tudo o que me importava – os Jogos da Pequena Liga, festas de aniversário, levar os miúdos à escola, fazer acampamentos, andar de barco, descer rios, canoagem, pesca,,, vivia dos direitos de autor dos discos. Tornei-me imperceptível, quer dizer, a minha imagem é que se tornou. Algures no passado tinha escrito e cantado canções que eram muito originais e marcantes, não sabia se alguma vez voltaria a fazê-lo e não me importava nada com isso.

Bob Dylan em Crónicas

DIEGO


Vi, escritos na relva, os mais belos poemas de uma vida.
Sob o clamor das vozes
ouvi a tua voz naquele bairro do sul distante,
buenos aires do perdido amor,
com as suas milongas,
com os seus punhais dolentes.

Tu não crescias.
Eras puro, com a beleza por dentro, essa terrível beleza
que arde no coração.

De muito longe vieram contigo o júbilo e as altas flores
da magia.
Tudo enlouquecia, de repente.
O mundo era um prado vertiginosos, com a demência à volta.
Em Junho, o sol explodia sobre as cabeças delirantes e eu
sei  que a morte chegava logo,
batendo à porta da tua noite.

Eu também parti no sonho do branco pó para onde partias
e, depois,
numa lágrima de imenso mar, disse-te adeus, apertando-te
secretamente na solidão dos meus dias.

Tudo passa tão depressa na estação do sol e, em setembro,
já corremos as cortinas dos salões,
regressando ao outono,
quando os cabelos adquirem a neve do tempo. Esquecemos.

Ave que cruzas a grande planície onde a saudade mata com
os seus ferros incandescentes
traz-me novas do meu amigo,
fala-me do vento que o viu nascer ao lado da morte da
alegria.
Agora, que é tarde, só te posso recordar,
aqui sentado na fria pedra dos lugares vazios.
Agora, és apenas um menino triste, abandonado pelas
mãos de deus.

José Agostinho Baptista, publicado na revista Ler nº 28, Outono 1994

segunda-feira, 10 de julho de 2017

UMA JOVEM MULHER A LER


Sentada numa cadeira de praia, no terraço de um chalet no fundo do vale, há uma jovem mulher a ler. Todos os dias antes de me pôr a trabalhar fico um bocado a olhá-la com o óculo. Neste ar fino e transparente parece-me captar na sua figura imóvel os sinais desse movimento invisível que é a leitura, o correr do olhar e do respiro, mas ainda mais o percurso das palavras através da pessoa. O seu fluir ou deter-se, os impulsos, as demoras, as pausas, a atenção que se concentra ou se dispersa, os recuos, esse percurso que parece uniforme e afinal é sempre mutável e acidentado.
Há quantos anos não posso dar-me ao luxo de uma leitura desinteressada? Há quantos anos não consigo entregar-me a um livro escrito por outros, sem nenhuma relação com as coisas que devo escrever eu? Viro-me e vejo a secretária que me espera, a máquina com a folha no rolo, o capítulo para começar. Desde que me tornei um forçado do escrever, para mim acabou o prazer da leitura. O que eu faço tem como fim o estado de espírito desta mulher sentada na cadeira de braços enquadrada pelas lentes do meu óculo, e é um estado de espírito que me está proibido.
Todos os dias antes de me pôr a trabalhar olho para a mulher na cadeira: digo para comigo que o resultado do esforço inatural a que me submeto ao escrever deve ser o respiro desta leitora, a operação da leitura transformada em processo natural, a correspondente que levas as frases a roçar o filtro da sua atenção, a imobilizarem-se um instante antes de serem absorvidas pelos circuitos da sua mente e desaparecem convertendo-se nos seus fantasmas interiores, no que nela é mais pessoal e incomunicável.


Legenda: A Leitura de Bridget de Peter Samuelson

DITOS & REDITOS


 Sonhar é sempre morrer.

Se trovão seco no céu reboa, tempo violento nos apregoa.

Se os filhos da puta voassem nunca mais veríamos o sol.

É bem verdade não haver idiota maior de que um velho idiota.

Viver requer disciplina.

Não suba o sapateiro acima da chinela.

Aprender a viver uma hora de cada vez, e não perder de vista o dia de amanhã.

O passado é um país estrangeiro.

ESTAMOS FARTOS DE AMÉRICA


Carta de Jorge de Sena, datada de 15 de Janeiro de 1970, para Eugénio de Andrade:

Nem eu nem a Mécia aguentamos mais, além disso, os rigores do inverno aqui. Mas, realmente, do que estamos literalmente fartos é de América, apesar de todas as vantagens. Isto é só para quem vem de pé descalço de sapato e cultura – e a reacção anti-liberal é geral e assustadora. Para que vejas: um recente inquérito mostrou que 70% da população com mais de 25 anos aplaudiria a instalação da… Censura. E essa gente é a mesma que aplaude as violências policiais, os regimes de excepção nos outros países, os massacres no Vietnam, etc. E a tristeza é ver-se como mesmo os liberais estão condicionados pela mitologia americana. O outro dia, numa reunião de professores de Literatura Comparada (para cujo departamento fui nomeado em acumulação), um deles, que me não conhecera ainda, disse-me tranquilamente o seguinte: - Ah, o senhor é português… Tive um amigo sírio que não era mais branco que você…
Neste momento, estou assoberbado de trabalho, mas evidentemente que não me recuso colaborara no volume de ensaios sobre ti. O que eu preciso de saber ao certo é qual é a medida do «brevemente», nos planos do Cruz Santos, para preparar-me na ordem das prioridades inevitáveis a que estou preso.

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Uma curiosa sinopse (não sei de onde a tirei) de Os Fabulosos Irmãos Baker, filme de Steven Kloves.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



A Matiné das Duas

Na penumbra da pequena sala talvez o milagre
fosse um gato preto que miasse
ou uma mulher loura
que cantasse
uns blues vagamente sinceros
e se decidisse depois por um strip-tease de músculos
hermafroditas.

Mas tudo parece de cartão.
Ver um filme às duas em ponto da tarde
é como entrar
num drama de papéis higiénicos
para doentes do siso.

Quem pode habitar este pulmão
sem ar
e ouvir saltar a tosse
como rãs da secura para o veneno do mundo
em celuloide?

Não sentimos sequer uma perna avançar
sonâmbula,
dormente pelas agulhas do desejo
ou o olhar aceso no escuro
dum rosto
que o desespero
transformou numa visão celeste,
quase inebriada.

É o tempo do limbo das almas solitárias,
sentadas, em princípio de tarde
de má vida
o tempo dos animais quietos, subterrâneos,
à espera.
Depois virá correndo, veloz, essa inocente droga
que te leva a sonhar
com um suicídio discreto,
de veludo puído,
descoberto duas horas depois
ao reacender das luzes,
pelos outros quatro ou cinco
que continuam vivos
como tu.

Armando Silva Carvalho em Lisboas

Legenda: Michelle Pfeiffer, uma mulher loura que cantasse uns blues vagamente sinceros.

domingo, 9 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


Ainda que me espetem uma faca, até morrer hei-de dizer o que penso. hei-de dizer o que penso, hei~de dizer o que penso.


ANDAR NA LUA


Muita Lua, por via de José Gomes Ferreira e Maria Teresa Horta, aconteceu por aqui.
Hoje, domingo de Lua Cheia, lembrei-me da minha avó a dizer-me: «andas sempre na Lua!»
Ah!… aqueles tempos de eu «andar na Lua.»… música para os meus ouvidos.
Também uma das interpretações de «Blue Moon.» que muito me agrada, a dos Cowboys Junkies e, no calor da noite, a beleza de Audrey Hepburn, cantando «Moon River», nesse maravilhoso «Breakfast at Tiffany’s», baseado numa novela de Truman Capote, que entendia que Marilyn Monroe era a pessoa certa para a personagem de uma prostituta solitária e inquieta de Manhattan.
Não digo que Capote não tivesse as suas razões, mas teríamos perdido aquela doçura de uma boneca de luxo chamada Audrey Hepburn.
Bom, final de domingo.



PORTO DE ABRIGO


As idas ao Baú fornecem uma série de surpresas, cada uma de sua variedade.
Hoje, encontrei esta nota de despesa de um almoço no «Porto de Abrigo» na Costa da Caparica. O empregado não colocou a data mas eu, que costumava colocá-la nas costas da factura, daquela vez não o fiz.
Mas foi nos inícios dos anos 70.
A factura é explícita de que o Restaurante estava situado na praia e fornecia «esmerado serviço de cozinha caseira.»
Sim, porque na Caparica, ainda era uma mera aldeia de pescadores, hoje é vila e tornou-se um albergue espanhol, comia-se bem.
O almoço custou duzentos e catorze escudos, o que ao câmbio dos dias de hoje daria um euro e sete cêntimos.
Em alguns locais, que não frequento, é o preço de um café.
E lá estão os 10% que serviam para pagar, ou ajudar a pagar, o salário dos trabalhadores.
No capítulo de «Brandy», posso dizer que não era brandy o que se bebeu, mas sim aguardente «Antiqua», verdadeiro luxo asiático, ou dia em que o rei fazia anos, tal como se ouve numa canção do José Cid.
Foi no outro século, mas apetece mesmo dizer: «parece que foi ontem.»

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Cada vez me espanto mais com os recortes que guardei ao longo dos anos sobre as coisas mais variadas e muitas – hoje – inexplicáveis.

Não é o caso do Suplemento Literário de A Capital dos dias 20 e 27 de Agosto de 1969.

Bons tempos em que havia suplementos literários, havia divulgação cultural, havia, boa ou má, crítica literária.

Esta é a apresentação que Maria Teresa Horta escreveu para o suplemento de 20 de Agosto:


Poemas e poetas antologiados:

Identidade – Miguel Torga
A Bicicleta pela Lua Dentro – Herberto Helder
XXVII – José Gomes Ferreira
Renúncia – Florbela Espanca
Fado para a Lua de Lisboa – David Mourão-Ferreira
Noite de Verão – Manuel da Fonseca
Noite Fechada – Cesário Verde
17 – João Apolinário
Apolo – Sebastião da Gama
Quando a Lua Vier Tocar-me o Rosto – Ana Hatherly
Lua – Sophia de Mello Breyner Andersen

Do poema de Manuel da Fonseca os Trovante fizeram uma canção que consta do álbum «Terra Firme» de 1987:



 Esta é a apresentação que Maria Teresa Horta escreveu para os depoimentos que solicitou:


Responderam ao inquérito:

José Gomes Ferreira, João Rui de Sousa, E,M, de Melo e Castro, David Morão-Ferreira, Maria Alberta Meneres, Manuel da Fonseca, Ana Hatherly.

Do depoimento de Maria Alberta Meneres:

«Nunca me preocupei com o lugar que a Lua tem ou não ocupado na minha poesia. Mas hoje, 14 de Agosto de 1969, lembrei-me de me preocupar. E descobri esta coisa espantosa, de perfeitamente inesperada: em vez de me ter sentido atraída, parece que devo ter tido sempre um certo medo da Lua!
Para mim agora a Lua é essencialmente um lugar. Não sei se os poetas continuarão a falar nos seus poemas da Lua de que falavam, ou de outra Lua de nunca falaram, nem sei mesmo se seria da Lua que eles falavam quando falavam da Lua. Eles o saberão ou não.
Eu apenas sei de mim: porque hei-de deixar de falar da Lua nos meus poemas, quando me apetecer, se a Lua sendo um lugar, pode ser meu caminho de passagem para outros lugares?»

Este é o depoimento escrito que José Gomes Ferreira enviou para Maria Teresa Horta: