terça-feira, 23 de maio de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Uma das muitas vezes que vi Belarmino, filme-reportagem de Fernando Lopes. foi na noite de 10 de Outubro de 1972, na televisão a preto e branco da ditadura.

O filme fechava um breve ciclo dedicado ao cinema português.

Guardo o recorte do Diário Popular desse dia e onde Baptista-Bastos deixou uma breve evocação:

Era uma vez um filme à procura de espectadores. Foi há tantos anos que muitos dos que nele participaram só de vago se recordam: os dias vararam os meses, outra década surgiu, e o que figurava como imprecação e cólera – é, apenas, a ingénua aspereza de um protesto. O tempo sugere estas direcções inesperadas: o índice moral altera-se e as porções de coisas que entendêramos como verdades inarredáveis irão, sempre, obedecer a outros estatutos, «Belarmino» (é necessário dizê-lo) nasceu de projectos asseados e da urgência que tínhamos em cometer alguns desacatos. Gente considerável viu no seu comovido inconformismo um panfleto contra a fome e o desespero de um homem – quando era, tão-sòmente, a forma humilde de manifestarmos a incomodidade de termos trinta anos e de viver em Portugal perfilados na mesma coragem de ser campeões sem murro, poetas sem rima, cronistas sem coluna, bebedores sem bebida. Amantes sem amor. O filme procurava os espectadores que jamais teve: estreado num cinema de bairro, apoiado pela grita e pelo entusiasmo dos cineclubes – essa noite foi um alvoroço e uam discreta esperança. A peregrinação das conversas, entre o Vává, o Ribadouro e o Monte Carlo, num esquerdismo festivo que desejava áulicos e trompetistas da nossa efémera glória, cumpriu-se durante alguns meses. Mas «Belarmino», no Aviz era a desolação e o riso; um filme à procura daquela gente para quem Belarmino-o-homem afinal se dirigira sempre: «às vezes as palmas apeteciam-me mais do que as bolas de Berlim com que enganava a fome.» O recado que queríamos dar foi apressado, certamente; foi tosco, desajeitado e parvo, talvez. Mas esta noite, quando a Televisão fizer correr o filme para dois milhões de espectadores, há uma que estará a dobrar o cansaço para aquém do tempo, a sonhar as mesmas cóleras e as mesmas imprecações. E, talvez, a pensar que os miúdos desta cidade se recusam, hoje, a ser campeões. Campeões de quê? Campeões de quê?
Responde lá, ó Belarmino…



O Helder Pinho foi o responsável por vender a ideia ao Mário Castrim para que o Belarmino fizesse parte de um dos Encontros do Diário de Lisboa-Juvenil:

O retrato de um antigo lutador de boxe, Belarmino Fragoso, através das suas deambulações por uma Lisboa que já não existe. A solidão, o medo e a derrota cruzam-se num filme que baralha o documentário, a ficção e a entrevista num passeio por antigas salas de cinema e clubes nocturnos.

Para um catálogo da Cinemateca dedicado a Fernando Lopes, escreveu Manuel Monzos:

O Fernando fez um dos filmes que mais estimo e admiro. É o Belarmino. Apesar de não o achar perfeito, tenho por ele um enorme carinho, não somente pelo filme em si, mas, e talvez principalmente, por aquilo que pude sentir e aprender do que pode ser também o cinema.
A primeira vez que o vi foi há muitos anos, ainda era um miúdo e desde então recordo-o pela estranha sensação de surpresa e espanto com que fui confrontado com algo tão directo, tão próximo e tão real.
Foi um dos meus tios que nos fez vê-lo, a mim e aos meus primos, porque para além do que ele gostava do filme, trabalhavam nele dois dos seus amigos, o Manuel Jorge Veloso e o Augusto Cabrita.
Isso para mim já era divertido, pois através do meu tio eu também os conhecia.
Mas o que realmente me impressionou foi o próprio filme. Tudo o que nele se encontrava me era próximo. Era Lisboa, a Baixa e mesmo o meu bairro, a Mouraria. As ruas por onde andava, as pessoas com quem me cruzava.
Era o estádio do meu clube e o clube do bairro, a Barros Queirós, o Arcádia, o largo de São Domingos, onde muitas vezes encontrei Belarmino Fragoso, um tipo a quem eu até cumprimentava quando nos cruzávamos.


Pela primeira vez via um filme que me dava a sensação de poder estar lá, era um mundo palpável de coisas reais e que eu conhecia. E isso era fantástico. Essa possibilidade que descobria com aquele filme, daquilo que o cinema permitiria.
Nessa época ainda não pensava vir a dedicar-me ao cinema, mas dos fi lmes que via nos cinemas de bairro, como o Royal, o Rex, o Liz, o Cine-Oriente, ou nas grandes salas como o Império, o Monumental, o Tivoli, o Alvalade, o
Avis, os cinemas da rua dos Condes, nas escolas, salões paroquiais ou no Centro Espanhol, nesses primeiros filmes que via apenas com a emoção inocente de quem «vê» uma história, entre eles recordo bem o Belarmino por isso.
Essa capacidade de usar e reproduzir o real. E também o modo como era feito, mesmo sem perceber nada disso nessa altura, aquilo usava a montagem de um modo novo e surpreendente para mim e não tinha nada a ver com
o que eu vira até então. Aquilo foi forte e marcou-me. Mesmo hoje é um filme que revejo com enorme carinho e considero dos melhores filmes Portugueses.

Belarmino é um dos Amigos Pensados que o Alexandre O’ Neill deixou estampado na Feira Cabisbaixa:

TIVESTE  jeito, como qualquer de nós,
e foste campeão, como qualquer de nós.

Que é a poesia mais que o boxe, não me dizes?
Também na poesia não se janta nada,
mas nem por isso somos infelizes.

Campeões com jeito,
é a nossa vocação, nosso trejeito.

Esperam de 1 a 10 que a gente, oxalá, não se levante
– e a gente levanta-se, pois pudera, sempre.

Belarmino:
Quando ao tapete nos levar
a mofina;
tu ficarás sem murro,
eu ficarei sem rima,
pugilista e poeta, campeões com jeito
e amadores da má vida.

Uma das perguntas do Baptista-Bastos no filme do Fernando Lopes:

- Belarmino, tu és um homem ou um animal?


- Um pugilista é sempre um homem.


Belarmino Fragoso morreu a 19 de Abril de 1982.

Baptista-Bastos escreveu a notícia, o requiem por aquele bailarino em pleno ringue, um movimento perpétuo, um vigor que não se estilhaçava, um vulcão de poder e de força.

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