sexta-feira, 12 de maio de 2017

OLHAR AS CAPAS


Uma Noite em Lisboa

Erich Maria Remarque
Tradução: Luís Coimbra
Edições Saída de Emergência, São Pedro do Estril, Março de 2016

Demorei-me a olhar fixamente para o navio. Profusamente iluminado, o barco aguardava fundeado no Tejo. Embora estivesse em Lisboa há já uma semana, ainda não me habituara à sua iluminação exuberante. Nos países por onde anteriormente passara, à noite as cidades jaziam escuras como minas de carvão, e uma lanterna nas trevas era mais temível do que a peste na Idade Média. Eu vinha da Europa do século vinte.
A embarcação era um navio de passageiros; estava a receber carga. Eu sabia que o barco tinha partida marcada para a tarde do dia seguinte. À luz crua das Lâmpadas despidas, caixotes de carne, peixe, conservas, pão e legumes iam sendo acamados no porão; os estivadores levavam bagagens para bordo, levantando grades e fardos tão silenciosamente como se nada pesassem. O navio estava a ser preparado para uma travessia – como a arca no tempo do dilúvio. Era uma arca. Cada navio que deixava a Europa naqueles meses de 1942 era uma arca. A América era o Monte Ararat e o nível das águas enchentes aumentava de dia para dia. Há muito que tinham submergido a Alemanha e a Áustria, alagavam agora A Polónia e Praga; Amesterdão, Bruxelas, Copenhaga, Oslo e Paris haviam já sido inundadas, as cidades de Itália tresandavam de infiltração e nem a Espanha estava a salvo. A costa portuguesa tornara-se na última esperança dos fugitivos para quem a justiça, a liberdade e a tolerância eram mais importantes do que a pátria e os meios de subsistência. Portugal era uma ponte para a América. Quem não conseguisse alcançá-la, estava perdido, condenado à morte lenta num dédalo de consulados, esquadras de Polícia e repartições públicas, onde os vistos eram sempre recusados e as licenças de trabalho e residência impossíveis de se obter, uma selva de campos de internamento, pesadelos burocráticos, solidão e saudade onde se definhava perante a indiferença generalizada. Como é habitual em tempos de guerra, medo e sofrimento, o indivíduo deixava de existir como ser humano; só uma coisa importava: possuir um passaporte válido.

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