terça-feira, 4 de julho de 2017

A ANGÚSTIA DO TEMPO CORRENDO


15-6-1967
5ª feira: - cabe-nos lavar a roupa, tenho as mãos cheias de sabão, o calção é renitente e a habilidade pouca e de repente chamaram-me vou com as mãos cheias de sabão, limpo-as aos blujines antes que me caia nas mãos a carta. Leio: fotos e não ouso abri-la. Tenho medo. Primeiro comerei o pão c/ doce de tomate que eu mesmo fiz, beberei o café com leite. Depois arrumo tudo, ponho a carta à frente de mim e começo a tremer com as mãos. Estou velho? Abro-a com uma ansiedade de colegial apaixonado – há palavras, vida e seres que me chegam. Quero chorar e só o coração está pesado e dolorido. Sobre a alegria logo a angústia do tempo correndo sobre tudo quanto recebo e dou. Ah, mas vale a pena estar preso para sentir esta felicidade que me vem de vós! (A roupa anda ali no tanque, esqueci-me por completo dela: agora só no domingo.)

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

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