quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

ELSINORE



1

Cheirava a mar em Elsinore
Um leve cheiro a mar misturado
Com o aroma primaveril de ervas e arvoredo

O castelo fora por vezes reconstruído
E uma vez purificado pelo fogo
Tudo fora lavado e pintado
Passado a limpo e exorcizado

No entanto
Numa das salas do castelo
Um quadro do século dezoito mostrava
Uma rainha bela imperiosa arrogante
E no seu rosto a sombra de outro se espelhava
E também as muralhas vermelhas de tijolo
sobre as águas obscuras do fosso projectavam
Uma sombra muito antiga e cor de sangue


2

Cá fora o mar era de um azul claríssimo
Crianças brincavam na relva à luz do sol
E famílias felizes de perto as olhavam
Porém a guia disse que o passado mora do outro lado do castelo
E que o pano só sobe depois do sol descer
E que as palavras só se cruzam como facas
Quando soa a hora em que se embruxa a noite

Eu entre barco e avião cheguei desencontrada
Nada vi da profunda e visionária noite

Sophia de Mello Breyner Andresen em Mar

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A FIM DE SE RECORDAR...



- Vou dizer-te o meu segredo. É muito simples: só se vê com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se recordar.
- Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que perdi com a minha rosa… repetiu o principezinho, a fim de se recordar.
- Os homens esqueceram esta verdade. Mas tu não deves esquecê-la. Ficas para sempre responsável por aquele que cativaste. És responsável pela tua rosa.
- Sou responsável pela minha rosa, repetiu o principezinho, a fim de se recordar.

Antoine de Saint-Exupéry em O Principezinho

Legenda: Desenho de Antoine de Saint-Exupéry

OLHAR AS CAPAS


A Pista do Alfinete

Edgar Wallace
Tradução: E.V.
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 62
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Tab sentia-se fascinado por tudo quanto se relacionava com a loucura criminosa. Nos seus primeiros anos de actividade tinha escrito umam monografia a respeito desse tema: esse trabalho, entre outras especulações gratuitas, continha uma longa série de conclusões a que tinham chegado os estudiosos da matéria.
«Muitos actos que se reputam como sinais de insânia (manias de perseguição, etc.) não têm relação com a mania destruidora, embora revelem anormalidade, noutro sentido. O facto de um homem insistir em calçar um par de botinas de cor diferente ou costumar sair para a rua sem calças, é um indício de tendências homicidas.»

QUERO DORMIR NA ÁGUA DAS PALAVRAS


Quero dormir na água das palavras
que amam o silêncio
e a lentidão da luz
que é o fulgor de uma evidência indecifrável

Quero ser a concha do ingénuo sossego
de uma flor branca
como o monótono murmúrio
de uma respiração solar

Quero ser o ouvido de veludo
de um insecto azul
e quero beber a linfa do olvido
numa boca de argila
para sentir a monotonia ardente
da garganta da terra

António Ramos Rosa em Resumo: a poesia em 2013

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Este meu silêncio é feito de gritos!

José Rodrigues Miguéis em Aforismos e Desaforismos de Aparício

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

OLHAR AS CAPAS


José Saramago: A Luz e o Sombreado

Fernando Venâncio
Colecção Campo da Literatura nº 53
Campo das Letras, Porto, Novembro de 2000

Fomos muitos os que passámos uma fase de deslumbramento por Agustina. De José saramago é que não se adivinhava semelhante fraqueza. São duas as vezes que dela na Seara Nova se ocupa, à distância de seis meses, e tanto parece ter bastado para a quebra do feitiço. Decerto: logo começara por achar que as ideias da romancista “não se limitam a ser conservadoras: são retrógadas.” Mas, pergunta-se ele, “como é possível não ser submergido pela beleza torrencial desta escrita, que não tem igual na literatura portuguesa deste tempo?” E conclui: se há em Portugal “um escritor de génio”, esse é Agustina Bessa-Luís.
Saramago estava apanhadinho. Mas, meio ano depois, caía em si. Começa devagar, com passos de felino: “Sendo ou não sendo o maior escritor de hoje, é caertamente o que melhor domina e molda o barro da língua.” Mas… ela tem “os defeitos das suas virtudes”, E poderá acabar embalada na música que ela própria produz. Deste modo, “tanta beleza plástica, tanta profundidade”, vão terminar afundadas na confusão, na incoerência.

INDIGNAÇÕES...


25 de Janeiro de 1938

Vivo actualmente com as mais desprezíveis personalidades que provocavam a minha indignação quando era jovem.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

TANGO


Fico envolvida no remorso
Quando me ponho, lentamente, a recordar
O que foi a minha vida —
Contigo,
Naquele bar...

Dois anos! Dois pesadelos
Que me engelharam as carnes
E envelheceram os cabelos.

Ao que eu desci na tua companhia!
— Vocabulário, gestos, e o que eu fiz?
Queria ver-te bem, e para isso,
Tornei-me tudo... e até fui meretriz.

Nas mansardas do crime e do pecado
Desafiando a sífilis e a morte
Dei-me nua a dançar!...

E tudo para quê? Pra nada te faltar.

Ó tascas sonolentas, marinheiros,
Risos de escárnios, chufas, bofetadas,
Apitos, sangue, um grande cais, e a Lua,
Pálida, longe, a derramar torpor...

Triste, em surdina, uma guitarra fala!...

Visualidade trágica do amor.

António Boto em Canções


Legenda: pintura de RaymondLeech

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Fernando Assis Pacheco em O Poeta no Supermercado

Legenda: pintura de Diego Rivera

SUCINTAS DECLARAÇÕES DE AMOR


Aqui, no meu bairro de Campo de Ourique, onde deambulo, vejo, frequentemente, palavras escritas a tinta preta nas paredes dos prédios e nos abrigos das paragens dos autocarros, que são sucintas declarações de amor. Por exemplo: “André love Patrícia”. No suplemento semanal do “DN Jovem”, do “Diário de Notícias” , preenchido por textos, em prosa e verso, de jovens escritores, é frequente ver os títulos desses textos redigidos em inglês.
O caso mais impressionante como sinal do domínio da civilização americana e da nossa falta de identidade, é o de uma manifestação pública de estudantes universitários de Lisboa contra o preço das propinas. Nessa manifestação, berrando e gesticulando, os estudantes portugueses, em Portugal, erguiam um cartaz em que se lia “Não pagamos until the end of the world”. De espantosos que é, aqui vos deixo a data do documento que comprova o que vos digo: Diário de Notícias de 15 de Maio de 1992.
Um outro aspecto impressionante é o da alteração que se tem efectuado da escrita de diversos apelidos portugueses acrescentando-lhe um apóstrofo e um s. O senhor Silva, conhecido leiloeiro de livros, de Lisboa, e que anuncia os seus leilões nos jornais, passou a anunciá-los intitulando-se SILVA’S. Admirável, meus queridos tetranetos. Orgulhai-vos de ser portugueses. Desta pátria, a mais formosa e linda, que ondas do mar e luz do luar viram ainda.
O vosso pentavô  António Nunes, pai da vossa tetraavó Natália, mulher do tetravô que vos está escrevendo, era natural de Oliveira de Frades, uma modesta e graciosa vila do distrito de Viseu, onde eu, e a dita vossa tetravó Natália, fomos diversas vezes passar as férias de verão para recompor o corpo e o espírito passeando nas estradas e nos atalhos da localidade. Um dos poucos estabelecimentos aí existentes era a loja do senhor Grilo. Assim era antes do 25 de Abril. Veio a Revolução, veio a liberdade de expressão e, quando fomos de novo a Oliveira de Frades, pasmaram-se-nos os olhos ao lermos s tabuleta sobre a porta do modesto estabelecimento. Dizia: GRILLO’S.

Rómulo de Carvalho em Memórias

QUOTIDIANOS


Há quem sustente que 10% dos europeus hoje vivos (mais de 50 milhões de pessoas) foram concebidos em camas IKEA.

José Cutileiro escrevendo sobre a morte de Ingvar  Kamprad

POETA NO SUPERMERCADO


1.

Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

2.

Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
– um homem tem que viver
com um pé na Primavera.


Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.


Cheio de luz – como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio dos mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.


Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.

Fernando Assis Pacheco em A Musa Irregular

domingo, 18 de fevereiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


É assim o homem, caro senhor, tem duas faces: não pode amar sem se amar. Observe os seus vizinhos, se calha de haver um falecimento no prédio. Dormiam na sua vida monótona e eis que, por exemplo, morre o porteiro. Despertam imediatamente, atarefam-se, enchem-se de compaixão. Um morto no prelo, e o espectáculo começa, finalmente. Têm necessidade de tragédia, que é que o senhor quer?, é a sua pequena transcendência, é o seu aperitivo. 

Albert Camus em A Queda

OLHAR AS CAPAS


Sonhar a Terra Livre e Insubmissa

Egito Gonçalves/Luís Veiga Leitão/Papiniano Carlos
Desenho de Augusto Gomes, Vinheta de José Rodrigues
Capa: Armando Alves
Colecção Duas Horas de Leitura nº 16
Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1973

Carta


Lanço as palavras ao papel
como pescador calmo
lança os barcos ao rio.
Só no fundo, no fundo inviolado,
contraio e espalmo
as minhas mãos, mãos de afogado
morrendo à sede.

– Meu amor estou bem –

Quanto te escrevo,
ponho os olhos no teu retrato
pendurado nos ferros da minha cama
para que as palavras tenham o sabor exacto
de quem me ouve,
de quem me fala,
de quem me chama.

«Meu amor estou bem »

Ontem vi a Primavera
numa flor cortada dos jardins.
Hoje, tenho nos ombros uma pedra
e um punhal nos rins.

«Meu amor estou bem »

Se a morte vier, querida amiga,
à minha beira, sem ninguém,
hei-de pedir-lhe que te diga:

«Meu amor estou bem » 

sábado, 17 de fevereiro de 2018

PARA SER LIDO MAIS TARDE


Um dia
quando já não vieres dizer-me Vem
jantar

quando já não tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando

já não vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres

quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho

para ti será o começo de tudo

Uma outra vida haverá talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda

Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante

Mas para mim será já tão frio e já tão tarde

E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficará
desta hora redonda
em que ninguém repara 

Mário Dionísio

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

NÃO TER O DOMINGO VALIDO A PENA


Ricardo Reis rodeou a praça pelo sul, entrou na Rua dos Douradores, quase não chovia já, por isso pôde fechar o guarda-chuva, olhar para cima, e ver as frontarias de cinza parda, as fileiras de janelas à mesma altura, as de peitoril, as de sacada, com as monótonas cantarias prolongando-se pelo enfiamento da rua, até se confundirem em delgadas faixas verticais, cada vez mais estreitas, mas não tanto que se escondessem num ponto de fuga, porque lá ao fundo, aparentemente cortando o caminho, levanta-se um prédio da Rua da Conceição, igual de cor, de janelas e de grades, feito segundo o mesmo risco, ou de mínima diferença, todos porejando sombra e humidade, libertando nos saguões o cheiro dos esgotos rachados, com esparsas baforadas de gás, como não haveriam de ter as faces pálidas os caixeiros que vêm até à porta das lojas, com as suas batas ou guarda-pós de paninho cinzento, o lápis de tinta entalado na orelha, o ar enfadado de ser hoje segunda-feira e não ter o domingo valido a pena.

CANÇÃO DE EL-REI DINIS


Maria: anda o gadinho a trabalhar
Em plena florescência,
É um zumbido de ouro
No pasto em flor da abelha,
E temos o inverno até lá Março.

Um lindo Sol doente,
Como um poeta lírico,
Abre ao Inverno a Primavera:
E, ao néctar da abelha
Que é cor na corola
E música sutil do pólen,
Apetece cantar com Dom Dinis
"Ai, flores, ai, flores do verde ramo".

El-rei Dinis esteve no Castelo
Onde eu existo a uma distância pouca
Troveiro como um choupo à beira-rio
Ó Maria,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde pinho",

Com ritmo que leva olhos e tudo,
Filhas de lavradores
Começam a cavar o chão pousio:
Margaridas e crucíferas,
Lírios brancos e roxos,
Maria, há muitas flores para as abelhas.

A terra é graciosa,
Cá mesmo na prisão, descalço e nu,
Na derrota dos anos.
— Cantar velho, Maria,
Com tanta flor de hastes eretas
Toucando o verde prado?

Afonso Duarte em Ossadas

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


No silêncio da terra. Onde ser é estar.

António Ramos Rosa

Legenda: pintura de Winslow Hommer

RESTOS DE UM ANTIGO GOSTO DE SABER VESTIR...


Mário-Henrique Leiria, a 29 de Janeiro de 1963, ainda está em S. Paulo.

Conta a Isabelinha que anda «atarefadíssimo dando “golpe” sobre “golpe para conseguir documentos (mesmo falsos, se necessário) e raspar-me definitivamente deste esterco brasileiro. Aliás, ainda hoje estou para saber realmente qual foi a verdadeira razão que me fez vir para aqui… ou talvez saiba e não quero reconhecê-la…»

Aproveita para agradecer uma gravata que Isabel lhe enviou por ocasião do seu 40º aniversário, ocorrido a 2 de Janeiro:

«Porque dizes tu que o teu presente é ridículo? Isabelinha, nada que venha de ti pode ser ridículo; há tanta ternura em mim por tudo que és tu; que nada poderá ser ridículo para mim. Para além disso, se fosse eu a comprar a gravata, teria escolhido exactamente a que tu me enviaste. A pessoa que me trouxe a gravata teve um comentário que acertou mesmo: “Quem te mandou esta gravata deve conhecer-te muito bem…” Apesar de tudo, doce Maruska, ainda mantenho uns restos do meu antigo gosto por saber vestir, há quem diga que, quando quero. Sou o tipo que mais estranhamente e mais “blasément” veste em S. Paulo.»

O final da carta deu nisto:

«Peço-te que continues a falar de ti, da tua nova e maravilhosa vida, do teu John, de tudo o que, para ti, vale a vida. Peço-te também uma coisa; que sempre que tiveres notícias da Fipsy me contes como ela vai sendo feliz. Porque te faço este pedido, não sei… ou talvez saiba demais; é que me resta, saber que ele é feliz e continua a sê-lo… Que queres, querida Maruska, sou assim!
… e agora vou acabar de ler um bom e saudável romance policial e liquidar o resto da garrafa de vodka (“Bogka” para fingir que sei russo) que está ao alcance da minha mão direita (como bom deus pagão que posso perfeitamente ser, não tenho o “Filho” à mão direita, mas sim um objecto de maior libertação e realidade).

OLHAR AS CAPAS


A de Açor

Helen Macdonald
Tradução: Ana Falcão Bastos
Capa: Carlos Miranda numa adaptação com uma ilustração de Chris Wormell
Lua de Papel, Lisboa, Novembro de 2015


Procurar açores é como procurar a graça divina: acontece, mas não muitas vezes, e não sabemos dizer quando nem como. Mas as hipóteses melhoram ligeiramente nas manhãs calmas e límpidas do início da primavera, pois é nessa altura que os açores largam o seu mundo por baixo das árvores para fazerem a corte uns aos outros lá no alto, no céu. Era isso que eu tinha esperança de ver.

A BELA DO BAIRRO


Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores
tenho o quê? quinze anos
tenho o quê uns olhos com que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que a amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até as jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque

ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor


Fernando Assis Pacheco em Variações em Sousa

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Em paisagens humanas importa-me a sede dos olhos que ainda procuram.

Patrícia Baltazar

Legenda: fotografia de Vivian Maier

COMO PODE ISTO SER ?


Durante o dia todo me ofenderam
e até ameaçaram devorar-me.
Espiaram minha vida passo a passo.

Bebe pela tua taça as minhas lágrimas.
Já não tento dizer que em ti confio.

Como pode isto ser

se tudo vem escrito no teu livro?
                                 
Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

OLHAR AS CAPAS


O Crime do Dragão

S.S.Van Dine
Tradução: Roberto Ferreira
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 97
Livros do Brasil, Lisboa s/d

A propriedade era de arvoredo: cedros, carvalhos e pinheiros, com trechos cobertos de mato e jardins rústicos. A casa ficava sobre uma pequena elevação.
Avistavam-se de todos os lados sinais da vida estuante de Nova Iorque. No entanto, uma sensação de mistério e isolamento se me insinuou no espírito e compreendi, pela primeira vez, o anacronismo daquele lugar. Efectivamente, Inwood mais parecia uma fortaleza, perdida em remoto canto do mundo, do que uma parte da cidade, a que, no entanto pertencia.

O SOM DO SILÊNCIO


Devagar, como se tivesse todo o tempo do dia,
descasco a laranja que o sol me pôs pela frente. É
o tempo do silêncio, digo, e ouço as palavras
que saem de dentro dele, e me dizem que
o poema é feito de muitos silêncios,
colados como os gomos da laranja que
descasco. E quando levanto o fruto à altura
dos olhos, e o ponho contra o céu, ouço
os versos soltos de todos os silêncios
entrarem no poema, como se os versos
fossem como os gomos que tirei de dentro
da laranja, deixando-a pronta para o poema
que nasce quando o silêncio sai de dentro dela.

Nuno Júdice em Resumo: a poesia em 2010

Legenda: pintura de Van Gogh