terça-feira, 21 de novembro de 2017

PAPÉIS DATADOS



Amar a vida é não ter medo da morte.
Que venha quando entender, mas que não seja muito cedo mas também não muito tarde.
Maria Lamas numa entrevista ao Diário de Lisboa de ontem.
«Embora tenha sofrido muito, amo a vida. E tenha pena de morrer.»

(14 de Fevereiro de 1970)


Legenda: Maria Lamas

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


Ana Gomes, eurodeputada do PS, com base em contactos que tem efectuado em Bruxelas, diz que «há hipóteses muito sérias» de Mário Centeno vir a assumir a presidência do Eurogrupo e que «isso seria bom para Portugal.»
Deviam estar todos muito quietinhos!

E isso de ser bom para Portugal  é uma treta.
Nunca nos poderemos esquecer de um tal de Durão Barroso  - «sigam o cherne» - que teve, ética e moralmente,  um desempenho miserável e se limitou a engrossar a conta bancária.

CANÇÃO BREVE


Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.

Da Antologia Breve publicada em 21 Ensaios Sobre Eugénio de Andrade

Legenda: fotografia de José Rodrigues em 21 Ensaios Sobre Eugénio de Andrade

OLHAR AS CAPAS



21 Ensaios Sobre Eugénio de Andrade
Seguidos de Antologia

Vários autores (Alexandre Pinheiro Torres, António Ramos Rosa, Eduardo Lourenço, Gastão Cruz, Jorge de Sena, José Fernandes Fafe, José Pacheco Pereira, Mário Sacramento, Óscar Lopes, Vergílio Ferreira, entre outros.
Prefácio: Manuel Alberto Valente
Capa: Armando Alves
Colecção Civilização Portuguesa nº 10
Editorial Inova, Porto s/d

Contra el silencio y el bulício invento
La Palabra, libertad que se inventa y me inventa cada dia.
Octavio Paz

Apetecia-me escrever que, após Fernando Pessoa, era Eugénio de Andrade o maior poeta português do século presente. Apetecia-me escrever, mas não escrevo. E no entanto, passado o magnífico rebanho do portentoso guardador, a poesia nacional – alicerçada, sem dúvida, num índice de qualidade bastante saliente – poucos nomes teve e tem que brilhem tanto com o dele. Poucos? Três ou quatro apenas! Os suficientes, justo é confessá-lo, para que a mão me trema e o coração se sobressalte no momento de arriscar a parada suprema…

(Do prefácio de Manuel Alberto Valente)

E PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

domingo, 19 de novembro de 2017

O ESPÍRITO DOS PORTUGUESES


Depois das histórias, mais ou menos pitorescas, que Rómulo de Carvalho vai contando aos seus tetranetos, irá entrar numa parte da história que tem o seu quê triste e complicado.
Rómulo irá abordar, com mágoa, o que passou a acontecer nas escolas e liceus. Mais concretamente a sua experiência no Liceu Pedro Nunes onde era professor. Nessa parte da história, entraremos nos próximos tempos.
Antes, na página 308 das suas Memórias, deixa esta reflexão:

«Esta euforia da Liberdade, de cada um poder fazer o que lhe apetecer sem ter que dar satisfações a ninguém, ajustou-se tão bem ao espírito dos portugueses como antes se ajustara, nos tempos da ditadura, o peso da servidão.

UM MINUTO DA SUA ATENÇÃO

Este anúncio demora sensivelmente 1 minuto a ler.
Uma torneira aberta durante 1 minuto pode gastara 12 litros de água.
Segundo as nações Unidas, um ser humano precisa de 110 litros de água por dia.
Fechando a torneira 1 minuto poupamos 12 litros de água. Se todos o fizermos, poupamos 120 milhões de litros num minuto. O suficiente para garantir as necessidades básicas diárias de 1 milhão de portugueses.

OLHAR AS CAPAS


Poirot Desvenda o Passado

Agatha Christie
Tradução: Edison Ferreira Santos
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 1
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Hercule poirot olhou com interesse e curiosidade para a jovem que era introduzida na Sala.
Nada havia de especial na carta que ela lhe escrevera. Era um simples pedido de entrevista, sem que nada sugerisse qual o assunto a tratar. Uma carta breve e séria. Apenas a firmeza da caligrafia indicava que Carla Lemarchant era nova.
E, agora ali estava em carne e osso – uma rapariga alta e esbelta, que mal havia trasposto a casa dos vinte anos. O tipo de mulher que se gosta de olhar mais de uma vez. Apresentava-se bem vestida, um casaco bem talhado, de alto preço, saia e peles. A cabeça bem equilibrada nos ombros, sobrancelhas regulares, o nariz de corte delicado e queixo resoluto. Parecia muito viva. Era a vivacidade, mais doq eu a beleza, que constituía nela o traço predominante.
Antes da sua entrada, Hercule Poirot sentia-se velho… Agora sentia-se rejuvenescido, vivo, ardente!
Quando avançou para cumprimenta-la, sentiu os seus olhos cinzento-azulados estudarem-no atentamente. Ela examinava-o com grande interesse.
Sentou-se e aceitou o cigarro que ele lhe oferecera. Depois de acender o cigarro, ficou sentada um ou dois minutos, a fumar e a examiná-lo com olhar grave e inquisitivo.
Poirot disse, delicadamente:
- Sim, é preciso decidir primeiro, não é?
- Queira desculpar, não ouvi bem – disse ela.
A sua voz era graciosa, com uma leve e agradável aspereza.
- Procura verificar primeiro se sou um charlatão ou o homem de que precisa, não é verdade?
Ela sorriu e disse:
- Bem, sim, é mais ou menos isso. Sabe, M. Poirot, o senhor… não é exactamente como eu o imaginava.
- E sou velho, não é isso? Mais velho do que imaginava?
- Sim, e isso também. – Ela hesitou. – Estou a ser franca, bem vê. Eu quero… é preciso que eu tenha… o melhor.
- Fique tranquila – garantiu Hercule Poiror. – Eu sou o melhor!
- O senhor não é muito modesto – replicou Carla. – Não tem importância, estou inclinada a confiar na sua palavra.
- Como sabe, disse Poirot serenamente – não devem apenas empregar-se os músculos. Não preciso de curvar-me e medir as pegadas, apanhar as pontas de cigarros e examinar as hastes recurvadas da grama. É suficiente, para mim, sentar-me na minha cadeira e pensar. É isto – e deu uma leve pancada na cabeça ovóide – é isto que funciona!

sábado, 18 de novembro de 2017

DESESPERO



Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero. 

José Carlos Ary dos Santos de A Liturgia do Sangue em Vinte Anos de Poesia

OLHAR AS CAPAS


Retratos de Hábito

Nuno Félix da Costa
Versão inglesa de Anne Morrison
Capa: Manuel Rosa
Assírio & Alvim, Lisboa, Dezembro de 1983

O povo português é, como muitos, um cruzamento de raças, percursos e destinos que confluem no fatalismo da localização geográfica isolada e extremada a uma península no fim da Europa. Imagino as pessoas que aqui foram ficando: as perfeccionistas e insatisfeitas à procura da terra prometida finalmente achada ou conformados com a impossibilidade de a encontrar ou sem ânimo para a caminhada de regresso; as escorraçadas doutros espaços mais centrais ou vencidas e decididas a começar de novo; as que levaram até ao fim o gosto pela viagem e que aqui ficaram rodeadas de mar excepto no caminho que as trouxe; as que vieram por mar, já tudo conheciam e aqui ficaram; e as que naufragaram e não puderam não mais regressar.
Este perfil de pessoas parece consistente com o que são as atitudes (hábitos interiores) dominantes na nossa alma: a esperança vaga num futuro “ melhor” que há-de vir “quando deus quiser” e pelo qual não há muito a fazer para já, onde radica o sebastianismo e a Nossa Senhora de Fátima; a necessidade de motivações grandiloquentes como as da embaixada de D. Manuel ao Papa ou as do Convento de Mafra de D. João V, necessidade que nos faz sair do habitual miserabilismo minimalista; a aceitação do destino, o fado, que tem a ver com o fatalismo inclusos nos nossos costumes brandos e tolerantes, pouco reactivos do “tinha que ser”, “estava escrito” e, como sequência, “não havia nada a fazer”.

Uma parte significativa das fotografias foi tirada em festas religiosas.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

VELHOS RECORTES


Recorte do Diário de Lisboa-Juvenil de 4 de Fevereiro de 1969.
Citação de O Despojo dos Insensatos de Mário Ventura.

RELACIONADOS


Viana do Castelo. Procissão do Mar. 1983.

Ílhavo. Partida para um enterro. 1982.

Legenda: fotografias de Nuno Félix da Costa em Retratos de Hábito.

NÃO TENHO PLANOS, NEM PROMESSAS


Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo - a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só

o que li nos romances que me salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante

que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago portas abertas no coração:

se ainda não sabias, és muito bem-vindo.

Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida

Legenda: imagem Pinterest

DIAS DE ACTIVIDADE TRÁGICA


A 23 de Dezembro de 1961, Mário-Henrique escreveu uma carta - «à noite, como sempre», desde S. Domingos, a Isabel a «doce Maruska, o amor querido», e em que chega a interorizarque qualquer coisa acontecerá, «voltar a estar vivo e a acreditar na manhã e nas estrelas».
A carta é longa, a felicidade fê-lo  «andar toda a manhã a berrar desafinadamente velhas canções russas, certamente com grande ofensa dos vizinhos».
Mas terá existido um telefonema de Isabel.
Por certo, uma qualquer ponta de arrependimento, e podemos ler em final de página:

Querida

O teu telefonema desta manhã tirou um pouco da alegria desta carta, mas ela já estava escrita e assim vai.

Já em Janeiro do novo ano, Mário volta, desesperadamente, à escrita, sem indicação de onde escreve:

Ouve, Isabel, tenho pensado, pensado muito nestes dias de actividade trágica (a palavra é verdadeira, caríssima) e visto que tenho que ser lógico e honesto comigo mesmo, verifiquei que não pode realizar-se connosco aquilo que eu, no meu desejo de ter direito a um pouco de felicidade, pensei que seria verdade. Se não vê: não podes, nunca poderás suportar um homem como eu. Se pudesses, já o tinhas decidido firmemente durante estes três ou quatro meses em que nos conhecemos. Isto é verdade e tu sabe-lo. Sabes isto, assim como sabes que a minha companheira terá de ter a coragem que teve a Dietlinde: abandonar tudo para seguir o homem que ama. Mas, minha cara, sê honesta contigo mesma, em ti não há amor suficiente para me seguir. Não é uma crítica, querida Maruska do sorriso bonito, é um facto que eu verifiquei com o meu imundo espírito dialéctico, Isabel, eu não partilho nada com ninguém; dou e quero ter. De outra maneira, não. Sou talvez aquilo a que se chama um lobo solitário e, para esses animais amargos e refilões, raramente aparece a loba que os quer seguir, Há que lutar contra toda a lcateia, menina bonita, tanto o lobo como a loba, e isso é duro. Quanto ao lobo, geralmente é animal já pelado e cheio de cicatrizes, mais dentada menos dentada, tanto faz. Mas a loba, essa terá uma vida de inferno – e amor violento – que não é fácil de aceitar. E aqui tens tu mais uma história que bem poderia ser do Jack London.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

CAEM


Caem. Direitas à terra, crianças
que se dependuraram nas varandas
a secar. Prumos de sangue,
suicidadas pelos pais. Entre o povo
é assim: sempre sobram
mais filhos para deixar cair
no esquecimento. É o que acontece
por maternidades indesejadas
de noivas de pechisbeque

Paulo da Costa Domingos em Resumo: a poesia em 2010.

OLHAR AS CAPAS


Que Importa a Fúria do Mar

Ana Margarida de Carvalho
Capa: Rui Garrido
Teorema, Lisboa, Maio de 2013

Tersa gente esta, de almas baldias, vontades torcidas pelo frio que aperta, amolecidas pelo sol que expande. Ando aqui a ganhar a morte. Nestes campos de giesta, engatadas raízes no chão, tão presas de seiva e vontade que não as pode a força de um homem arrancar. Ervas daninhas mais difíceis de vergar do que um pinheiro bravo à machadada. O pinheiro deixa o coto apodrecido, vã ruína orgânica, mas as raízes das giestas mantêm-se sorrateiras, infiltrantes, debaixo da terra, a aguardar melhor ocasião para levantar haste. E, mal um homem vira costas, lá estão elas, sob os pés, soturnas, insinuantes, sôfregas de todas as pingas de água, a saciarem-se, a exaurirem as lavouras, sem sequer a gentileza de uma sombra, só pasto de insetos, refúgio de furões, conspiração do matagal. Assim ando eu. Entre mato rasteiro e bravio. Que a vida sempre me foi um ferro de engomar. Quando há um prego que se destaca, martela-se. E no entanto, mesmo amolgado e enterrado, continua lá.  
De quem é o carvalhal?
Ando aqui a ganhar a morte. A vergar-me a cada passo, nesta rabugem vegetal, com involuções de ouriço-cacheiro. Se me tocam, eu abro pico em todas as frentes. Que eu nunca pedi nada. Nunca encomendei sermão. Nunca enclavinhei a mão par dar um murro na mesa. Nem me caberia esmurrar a mais dilecta peça de mobiliário da casa. Onde os manjares eram pousados de mansinho  e arrebatados em silêncio, aspirares de estagnação e respeito – e, no final, as migalhas ajuntadas e receosamente pinçadas entre o indicador e o polegar.
Graças vos dou, meu Deus, por me teres dado de comer e beber sem o merecer, dai-me o céu quando morrer.
Rogávamos-Lhe o céu, ambicionávamos-Lhe a terra. Não a leveza dela em cima de caixão, que esses póstumos torrões não aconchegam, mas afrontam quem nunca teve terra em vida à mão de semear, e agora conquistava sete palmos dela, abençoada, quando os dedos gélidos e descarnados repousavam, entrelaçados, sobre o peito. Inúteis até para arrancar raízes. Tanta terra no mundo para morrer, tão pouca para viver.
Leva-me devagar. Que não fui tido mas fiz achado.
A alma é do criador e da santíssima virgem. E da terra também.
O achado é meu.
E de quem é o carvalhal?

POR QUE ME ABANDONASTE?



I

Por que me abandonaste?

Clamo por ti de dia e não me respondes
nem de noite sossegas os meus sonhos.

Troçam de mim só porque confiei:
- Ai confiou? Agora que se entenda!

Numerosos os touros me rodeiam
e as feras de Basan.
Sou a água que se derrama
coração de cera a desfazer-se
é de barro cozido esta garganta.
Eu magro, todo ossos.
Sempre sobre a minha alma há uma espada
há as patas dos cães.

Responde: sou verme ou homem?

II

Direi o vosso nome aos meus irmãos.
Direi, na grande assembleia.

Hão-de saciar-se os pobres
erguer-se os corações.
Desde o ventre da mãe te pertencemos.

Os que do pó regressam, te saúdam.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

Legenda: fotografia de Vivian Maier

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

NEW YORK 1970


Vi o Hudson
E a sua pele de pantera escura

Vi o Hudson
E a sua pele de pantera escura

Atravessei Harlem às onze da noite
Vi rostos e rostos e rostos negros
E não ouvi «jazz»
E não ouvi ninguém
Cantar ~blues»

Atravessei Harlem
Por entre uma multidão imensa
Sentada às portas

Atravessei Harlem
Noite fechada
E não ter ouvido ninguém tocar «jazz»
Não ter ouvido ninguém percorrer lentamente
O rio interminável de um «blue»
Foi como ter ouvido

Um silêncio de morte

No tumulto das vozes

Alberto de Lacerda

Publicado no Diário Popular de 13 de Agosto de 1970

OLHAR AS CAPAS


Os Crimes da Viúva Vermelha

Carter Dickson
Tradução: Baptista de Carvalho
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 24

- Tairlane fixou a atenção nos pequenos navios de papelão. Estudou a disposição das peças e pensou que se fizesse avançar um caça-minas apoiado por um couraçado, poderia talvez aniquilar as defesas costeiras de H,M. Doía-lhe a cabeça e sentia as mãos pesadas como ferro. Lembrou-se de uma conversa que tivera, ainda recentemente, e declarou:
- Miss Brixham ficará ao lado do marido.
- Do marido?! – exclamou Sir George, surpreendido.
- Sim. Ela e Arnold eram casados secretamente, - continuou Tairlaine. – Foi ele próprio quem o insinuou. Miss Brixham ficará ao lado do marido; mal procederia se não o fizesse.
- E depois? Ficará viúva?
A mão de Tairlaine hesitou sobre o tabuleiro.
- Sim. É precisamente por isso que todos nós nos devemos ficar solteiros… É a sua vez, Sir Henry. Eu já joguei.

PANKAKE TINHA RAZÃO


Não se pode ter apenas uma breves lições de dança e pensar que se é o Fred Astaire.

Bob Dylan em Crónicas

E PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

terça-feira, 14 de novembro de 2017

QUOTIDIANOS


A minha mãe fez em, Setembro, 95 anos.
Fisicamente, de acordo com a idade, está bem. A cabecinha é que, em grande parte, já se foi.
De segunda a sexta-feira, das 9 às 17,00 horas, passa o tempo no Centro Paroquial Penha de França e, através do «Facebook», as acompanhantes vão colocando trabalhos que as companheiras da minha mãe vão fazendo.
Recordo que a minha mãe também fazia coisas maravilhosas: toalhas de renda, e colchas para cama de lã em cores.

QUE DEUS NOS AJUDE!


Carta de Sophia, datada de 11 de Outubro de 1962, para Jorge de Sena:
Diz-lhe que, «depois de três meses no Algarve aqui estou de novo aparelhando para o Inverno.», adianta que estão todos bem, que a filha mais velha fez anteontem quinze anos, e passa a relatar:

A PIDE esteve ontem em nossa casa revistando e levou todas as suas cartas.
Recebeu o Livro Sexto?
Começo hoje o Concílio Ecuménico. Deus nos ajude.

Legenda: Sophia a passar férias no Algarve. Não foi possível identificar a origem da imagem.

OLHAR AS CAPAS


A Luz de Newton

Hélia Correia
Ilustrações: Alice Aurélio
Relógio d’ «Água, Lisboa s/d

Era uma vez um homem que nascera para sábio. Ora, às vezes, tal facto aborrecia-o muito. Sempre com o nariz enfiado em livros velhos, sempre a escrevinhar relatórios para enviara aos outros sábios que moravam longe – naquele tempo não havia telefone -, sempre a pensar e a repensar, a fazer contas, a espreitar para os céus e para os caldeirões, que coisa! Então não tinha direito a descansar?
Parou e foi abrir uma janela. O sol – se bem que fosse um sol inglês estava cheio de força naquele dia – entrou por ali dentro, todo entusiasmado, porque era muito raro o permitirem-lhe fazer uma visita àquele laboratório. Com a pressa, tropeçou contra um prisma de vidro e desfez-se nas suas sete cores. Surgiu um arco-íris na parede.
O sábio percebeu tudo o que se passara e ficou ainda mais aborrecido.
- Pronto! Agora estraguei o mistério que havia no Arco-Íris do céu! Não passa de um espectro da luz solar que se refracta nas gotinhas de água. Acabaram-se as histórias sobre as panelas de ouro escondidas no lugar em que ele toca na terra. Ninguém mais terá nele a túnica de Íris, mensageira dos deuses, nem o sinal da paz entre Jeová e os homens. Mas que grande chatice!
Para desanuviar, foi dar um passeiozinho. Mas, como estava pouco habituado a andar, depressa se cansou. Sentou-se à sombra de uma macieira. E vai, caiu-lhe um fruto em cima da cabeça. Estava a saboreá-lo com delícia quando gritou de novo:
- Que chatice!
Descobrira, ali mesmo, as leis da gravidade.

PEQUENOS CADERNOS


Tenho esta história no caderdinho mas desconheço quem é o autor:

A meio da noite, pegou num martelo e desatou a bater nas paredes do quarto. A princípio com meticulosa cadência. Depois, tomado pelo desespero, de forma desordenada. Abriu buracos por toda a parte. Mas não conseguiu pregar olho.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


A televisão é como as torradeiras: carrega-se no botão e sai sempre a mesma coisa.

Alfred Hitchcock

O GATO


Um gato, em casa sozinho, sobe
à janela para que, da rua, o
vejam.

O sol bate nos vidros e
aquece o gato que, imóvel
parece um objecto.

Fica assim para que o 
invejem - indiferente
mesmo que o chamem.

Por não sei que privilégio,
os gatos conhecem
a eternidade.

Nuno Júdice em Assinar a Pele

Legenda: pintura de Charles Van den Eycken

E APRENDI A PILOTAR AVIÕES

As pessoas crescidas aconselharam-me a pôr de parte os desenhos de gibóias abertas ou fechadas. Que me interessasse antes pela Geografia, pela História, pela Aritmética e pela Gramática. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma magnífica carreira de pintor. O insucesso dos meus desenhos tinha-me desanimado. As pessoas crescidas nunca compreendem nada sózinhas e é fatigante, para as crianças, estar sempre  a dar explicações.
Foi por isso, obrigado a escolher outra profissão e aprendi a pilotar aviões. Voei um pouco por todo o mundo. E a Geografia, é certo, serviu-me de muito. Tornei-me capaz de distinguir, à primeira vista, a China do Arizona. É muito útil quando se anda perdido de noite.
Tive, assim, pela vida fora, imensos contactos com imensas pessoas importantes. Convivi com pessoas crescidas. Vi-as de muito perto. Nada disso modificou a minha opinião para melhor.
Quando encontrava uma que me parecia um tanto lúcida, fazia com ela a experiência do meu desenho número 1, que sempre conservei. Queria saber se era verdadeiramente compreensiva. Respondia-me invariàvelmente: «É um chapéu». Então não lhe falava mais, nem de jiboias, nem de florestas virgens, nem de estrelas. Punha-me à altura dela. Falava-lhes de brídege, de golfe, de política e de gravatas. E a pessoa crescida ficava toda contente por conhecer um homem tão sensato.

Antoine de Saint-Exupéry em O Principezinho

Legenda: pintura de Antoine Saint-Exupéry

OLHAR AS CAPAS


Figuras, Figurantes e Figurões

Luiz Pacheco
Selecção e prefácio: João Pedro George
Capa: André Carrilho
O Independente, Lisboa, 2004

Estive até aqui a ver se me distraía… e não posso. Morreu a semana passada o Fernando Assis Pacheco. A coincidência do nome não é o que me preocupa. Mas a perda de uma Amigo, numa Amizade velha de muitos anos e nunca desmentida, nunca traída. O Fernando era prosador de qualidade (como poeta não o apreciava tanto) e o seu último romance (ganhou no público um êxito que não logrou dos júris dos prémios) uma obra notável. Eu, que digo mal de tudo, se bem me lembro, escrevi-lhe uma carta, com justos louvores, porque gostei do livro. Tirando isso, que era muito e nada vulgar, menos vulgar ainda era a cordialidade, a simpatia, o entusiasmo que o Fernando punha no seu noticiário cultural, nas entrevistas, numa atenção eufórica perante a coisa literária e os coitados da República das Letras, sempre ansiosos por um conforto, uma palavrinha de ternura. Quanto a mim, posso e devo acrescentar: deu-me trabalho e razoavelmente remunerado, n’ O Jornal, quando eu andava por aí aos caídos.
Podendo, falarei talvez melhor do Fernando Assis Pacheco daqui a uns tempos, desculpem.

domingo, 12 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


É a solidão o que mais tememos na morte, prosseguiu ele. A solidão, nada mais que a solidão.

Mia Couto em Jesusalém

Legenda: não foi possível identificar o autor/Origem da fotografia.

QUOTIDIANOS


Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei — e que lhes disse — foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo.” Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. Falta uma iniciação que seja digna desse nome. E, a esse propósito, lembrei-lhes o que dizia Rubem Alves: que era pela cozinha que deveríamos sempre entrar numa sala de aulas, pois ensinar é a arte de despertar a fome em alguém.

José Tolentino Mendonça

Legenda: pintura de Vanessa Bell

A NÃO SER POR IMPRUDÊNCIA


Neste dia 24 de Abril de 1936, Cesare Pavese deixa mais referências ao suicídio:

É preciso ter sentido a obsessão da autodestruição. Não falo do suicídio: gente como nós, apaixonada pela vida, pelo imprevisto, pelo prazer de a «narrar», não pode chegar ao suicídio, a não ser por imprudência. Além disso, o suicídio aparece actualmente como um daqueles heroísmos míticos, uma daquelas fabulosas afirmações de uma dignidade do homem diante do destino, que têm interesse estatuariamente, mas que nos deixam entregues a nós próprios.
(…)
Notar bem o seguinte: no nosso tempo, o suicídio é um modo de desaparecer, praticado tímida e silenciosamente, sem dar nas vistas.
Quem sabe se o suicídio optimista regressará ainda a este mundo?

Cesare Pavese em Ofício de Viver

OLHAR AS CAPAS


O Crime Exige Propaganda

Dorothy L. Sayers
Tradução: Elisa  Lopes Ribeiro
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 63
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- Quem estava lá mais?
- Ainda não perguntei. É difícil fazer de detective, fingindo que desempenho outras funções. Mas, se alguém soubesse que eu andava a investigar, ainda menos me diriam. Não teria importância, se eu tivesse uma pálida noção do que estou investigando ou a quem devo vigiar. É duro procurara num cento de pessoas o autor de um crime não determinado.

DITOS & REDITOS


Só os mesquinhos são implacáveis na vitória.

A raiva é um sentimento que paralisa a inteligência.

Que lucram os mortos com os sofrimentos dos vivos?

Burra que assim come não diga que está doente.

Batatas fazem sono.

Pedidos de desculpa, são o princípio da desresponsabilização.

Fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia.

Pássaro que come, voa.

sábado, 11 de novembro de 2017

DIA DE SÃO MARTINHO


Dia de São Martinho.
Vai-se à adega e prova-se o vinho.
Apenas ficou o ditado.
Hoje, andei a compras no Pingo Doce ao som de Winter Wonferland, Jingle Bells, Let It Snow, Let It Snow, Let It Snow, a costumada banda sonora natalícia, acompanhada pelas promoções da loja de um doa mais ricos merceeiros de Portugal.
Há quem odeie as lengas-lengas natalícias, mas eu gosto.
E diga-se, há muito que não sentia um Verão de São Martinho tão quente como o deste ano.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS



A Festa de Babette e Outras Histórias

Karen Blixen
Tradução: Maria Jorge de Freitas
Colecção Asa de Bolso nº 46
Asa Editores, porto, Setembro de 2002

Na Noruega há um fiorde – um apertado e longo braço de mar cavando as altas montanhas – Chamado o Fiorde de Berlevaag. No sopé das montanhas, a cidadezinha de Berlevaag mais parece um brinquedo com casas miniaturais pintadas de cinzento, amarelo, rosa e tantas outras cores.
Há sessenta e cinco anos, duas senhoras de meia idade viviam numa dessas casas amarelas. Outras senhoras, nesse tempo, usavam a tournure e as duas irmãs bem podiam tê-la usado também, e com a mesma graciosidade, pois eram altas e esbeltas. Mas nunca seguiram os ditames da moda: sempre se acostumaram a vestir, com modéstia, de preto ou de cinzento, Receberam elas os nomes de Martine e Philippa, em homenagem a Martinho Lutero e a seu amigo Filipe Melanchton. Eram filhas de um Deão, um profeta, o fundador de uma facção ou seita religiosa conhecida e respeitada em toda a Noruega. Os seus membros renunciavam aos prazeres deste mundo, pois a Terra e tudo o que sobre ela existe, era quase uma ilusão e a realidade verdadeira era a Nova Jerusalém por que ansiavam. Desses lábios não saía uma inocente blasfémia, todos os seus colóquios não iam além de um «oh, sim», «oh, não» e dos nomes de Irmão i Irmã que na Congregação se davam.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

QUOTIDIANOS


É verdade, era assim que eu imaginava a idade adulta, uma espécie de longo Verão de São Martinho, um estado de tranquilidade, de calma e indolente indiferença, despojada da quase insuportável vizinhança indisciplinada da infância, depois de resolvidas todas as coisas que me intrigavam quando era pequeno, solucionados todos os mistérios, encontrada a resposta para todas as perguntas, e os momentos deslizando quase imperceptíveis, em gotículas douradas, subtilmente, até à quietude derradeira.

John Banville em O Mar

UMA IMAGEM DA REVOLUÇÃO


Continuam as histórias, pós 25 de Abril, contadas por Rómulo de Carvalho aos seus tetranetos, recordando as palavras que, na semana passada, aqui deixámos quando ele se questionava como seria se os aprendizes da liberdade, em nome dessa mesma liberdade não a quisessem aprender:

Certo dia tomei um eléctrico. Sentei-me e vi num outro banco um sujeito, um democrata, que puxou de um cigarro, o acendeu e se pôs a saboreá-lo expelindo fumaças. Já nesse tempo era proibido fumar nos transportes públicos, desde há muito. O revisor aproximou-se do homem e chamou-lhe a atenção para o caso: olhe que aqui não se pode fumar. O passageiro teve um sobressalto, fixou o revisor com o sobrolho carregado, e disparou: O quê?!.... O fascismo ainda não acabou?!
As histórias decorridas nos transportes públicos seriam muitas  e delas vos contarei ainda algumas outras de que fui testemunha, e até participante. Em outro dia descendo a Calçada da Estrela num eléctrico dos Prazeres, preparei-me para sair na paragem próxima do largo de S. Bento. Ao pretender sair do carro vi um homem, com aspecto de operário, postado junto da parta de saída, e nessa posição, dificultando a passagem. Emagreci o mais possível, sempre com os cuidados que tenho para não incomodar os outros, e saí, roçando um pouco a barriga do homem. “És gordo, pá!” disse-me o democrata. E eu, respeitando a sua liberdade de expressão, não respondi nada e fui à vida.
(…)
Deixemos os transportes, meus queridos tetranetos, e vamos a pé por aí fora. Vamos até à baixa lisboeta com a máquina fotográfica suspensa da mão. Ia eu a  caminhar na Rua Augusta, e que vejo? Vede a imagem que acompanha esta página. Aí vereis uma carroça, carregada de couves, de nabos e de nabiças, puxada por um burro. O homenzinho que a conduzia, aproveitando a proclamada liberdade, veio até à Baixa vender as suas hortaliças, a par com automóveis que passavam. E, como se vê na imagem, logo lhe apareceram fregueses. É uma imagem da Revolução.

RELACIONADOS


Ao morrer estrava a acabar o livro «Filhos da Tempestade»; e nos seus planos o romance autobiográfico «Assim Foi Temperado o Aço» devia terminar com um volume com este título sugestivo «A Felicidade de Kortchaguine»… A felicidade de Ostrovski, cego, paralítico, a morrer nos campos de batalha…
Possa essa felicidade suprema de um jovem herói para quem «tudo quanto for pessoal não é eterno», irradiar da sua vida e da sua morte!
Em resposta a uma calorosa saudação dele recebida o ano passado, escrevi-lhe:
«Pode estar certo de que a sua vida conheceu dias sombrios é e será uma luz para milhares de homens. Permanecerá no mundo como um benfeitor, um exaltante exemplo da vitória do espírito sobre as traições do destino individual pois você uniu-se ao seu grande povo, ressuscitado e livre: você uniu-se à sua poderosa alegria e ao seu esforço irresistível. Você está nele, ele está em si»

Romain Rolland, do prefácio a Assim Foi Temperado o Aço de Nikolai Ostrovski

Legenda: Nikolai Ostrovski

OLHAR AS CAPAS


Assim foi Temperado o Aço

Nikolai Ostrovski
Prefácio Romain Rolland
Capa: Armando Alves
Edições «A Opinião», Porto 1975

No vão iluminado da porta entreaberta do depósito apareceu por um instante uma figura humana que as sombras do crepúsculo absorveram. As pancadas no ferro abafaram o primeiro grito mas quando o homem que aparecera na porta veio a correr até ao local onde reparavam a locomotiva, Artion que já levantara o martelo não desferiu o golpe.
- Camaradas! Lenine morreu!
O martelo resvalou-lhe lentamente pelo ombro e a mão de Artiom pousou-o sem ruído no chão de cimento.
- Que disseste? – As mãos de Artiom agarraram como tenazes o couro do casaco do que havia trazido a tremenda notícia.
E este coberto de neve e ofegante repetiu, já com voz rouca e entrecortada:
- Sim, camaradas, Lenine morreu.
E pelo facto de o homem já não gritar, Artiom compreendeu a espantosa verdade e reconheceu o rosto de quem falara: era o secretário da organização do Partido.
Os homens saíram dos fossos e ouviram em silêncio a notícia da morte daquele cujo nome era conhecido em todo o mundo.
E junto das portas fazendo estremecer tudo e todos ecoou o apito de uma locomotiva. Do extremo oposto da estação veio a, impregnado de alarme, unia-se o apito da sereia da central eléctrica, agudo e penetrante como o voo de um obus. Com o som límpido do bronze cobriu estes apelos a bela locomotiva de marcha rápida, tipo «S», pronta para sair rumo a Kiev conduzindo um comboio de passageiros.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Antes pobre e livre que rico e subjugado. Bem entendido, os homens querem ser ricos e livres e é o que os leva algumas vezes a ser pobres e escravos.

Albert Camus em Cadernos III

CONSOLAÇÃO DE G. A PAULINA



«Os que, ao fim da vida toda,
regressaram à sua fortaleza,
já não têm agora tempo
nem espaço para oferecer à morte;
nem morte para oferecer a si mesmos.
Séneca na estufa esvaindo-se em vagaroso sangue,
aspergido sobre os escravos
como uma dádiva de recta vida.
É possível ser rico e ser recto? É.
Mas pode a morte ser
testemunha da vida?

Porque é tão difícil, Paulina, morrer em tom menor,
sem tragédia e sem justificações,
sem procurar inutilmente a salvação
da vida
(já que os bens ficam ao cuidado do testamenteiro),
é tão impertinente deixar escrito,
ainda por cima tão bem escrito:
‘Queimem o meu cadáver sem qualquer cerimonial’,
é tão decepcionante, tão desproporcionado!

Outros, menos desesperançados e menos amedrontados,
fitam com impacientes olhos os médicos
invejando-lhes a excelente saúde e a barba feita,
e por mais um dia de vida,
de penosa e vagarosa vida,
seriam capazes de trocar
cinquenta anos de riqueza e rectidão.
Esses parecem-me, a mim que
não sou um filósofo,
bem mais sólidos e irrefutáveis.

Ocorreu-me ontem que
não vejo o correio há uma semana,
e que nem por isso sou mais feliz ou mais infeliz;
a felicidade não depende certamente de coisas como o correio
ou como o temor ou o desejo,
depende talvez mais, pelo menos para já,
da certeza de que os papéis estão arrumados,
pagas as dívidas,
intacta ainda a possibilidade de morrer.
Um dia destes, se fosse caso disso,
escrever-te-ia sobre a discordante paixão da
imortalidade.
Agora é tarde, estão já
à porta os assassinos.
Teu Gallion.»

Manuel António Pina em Poesia Reunida

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

TRUMPALHADAS


Um ano de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos.
O sabermos, cada vez melhor, que Trump é um enorme problema para o resto do Mundo.
Até quando?

HÁ APENAS UM VAZIO E PRONTO


Mário-Henrique Leiria gostava do Natal.
A 17 de Dezembro de 1961 («noite, claro») desde S. Domingos escreve a Isabel, «querida menina sorridente, precioso elemento do foro português»:



Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

OLHAR AS CAPAS



Autobiografia e Poemas

Maiakowski
Tradução: Carlos Grifo
Colecção Forma nº 2
Editorial Presença, Lisboa s/d

Podia devorar
como um lobo
toda a burocracia,
não é comigo
o respeito
por mandatos,
e mando
para o diabo
que os carregue
todos os «papéis».
Menos aquele...
Passando ao longo
dos compartimentos
e cabinas,
um funcionário,
e que polido,
avança.
Cada um apresenta o passaporte,
e eu,
dou
o meu
pequeno bilhete escarlate.
Para alguns passaportes
há sorrisos,
para outros -
vontade de os cuspir.
Têm, por exemplo,
o direito ao respeito
os passaportes
com o leão inglês
em dois lugares.
Devorando
com os olhos o grande personagem,
fazendo saudações e curvaturas
pega-se,
como numa gorjeta,
no passaporte
de um americano.
Para o polaco
há o olhar
da cabra frente ao edital.
Para o polaco -
uma fronte enrugada
num elefantismo policial -
de onde vem este
e que são
estas inovações na Geografia?
Mas é sem voltar
a abóbora-cabeça,
sem experimentar
qualquer emoção forte,
que se aceita
sem pestanejar
os papéis do dinamarquês
e dos suecos
de todas
as espécies.
Súbito,
como lambida
pelo fogo,
a boca
do cavalheiro
se torce.
O senhor
funcionário
tocou
a púrpura deste meu passaporte.
Toca nele
como se fosse bomba,
toca nele
como se fosse ouriço,
toca nele
como em cobra cascavel,
de vinte dentes,
de dois metros e mais de comprimento.
Cúmplice
piscou
o olho do carregador
que está pronto
a carregar, de graça as minhas malas.
O agente
contempla o chui,
e o chui
o agente.
Com que volúpia
me teria,
a espécie policíaca,
batido, crucificado,
porque
tenho nas mãos,
trazendo foice
e trazendo martelo,
o passaporte soviético.
Podia devorar
como um lobo
toda a burocracia,
não é comigo
o respeito
por mandatos,
e mando
para o diabo
que os carregue
todos os «papéis»,
menos aquele...
Das minhas
profundas algibeiras tirarei
o atestado
deste enorme viático.
Leiam-no bem,
Invejem -
eu
sou um cidadão
da União Soviética.


(1929)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Mais tarde ou mais cedo temos de pomar partido, de forma a parecermos humanos.

Graham Greene em O Agente Americano

Legenda: John Reed

A REVOLUÇÃO DE OUTUBRO ESTÁ MORTA?



Pedro Tadeu, hoje, no Diário de Notícias